Bletchley Park e o surgimento do computador moderno

Um dos meus objetivos aqui nessa viagem era fazer uma visita técnica (nome bonito, não?) a Bletchley Park. Você muito provavelmente nunca ouvir falar desse lugar; e a culpa não é sua. Mas esse lugar pode ser considerado crucial para o desenvolvimento dos computadores a partir da segunda metade do século XX. E vou tentar explicar as razões.

Tudo começa com a criptografia, atividade que se destina a garantir a segurança nas comunicações através de diferentes métodos para evitar que a mensagem seja compreendida por quem não deveria. Não precisa dizer que isso é uma atividade crucial, especialmente para Governos. Para se ter uma ideia do estrago que uma estrutura de criptografia e sigilo insuficientes podem causar, basta perguntar aos EUA qual a opinião deles sobre o Wikileaks e Julian Assange.

Durante a Primeira Guerra Mundial, porém, a importância da criptografia aumentou muito, culminando com fantásticos desenvolvimentos na área durante o período entreguerras. Máquinas destinadas a criptografar mensagens enviadas por generais no campo de batalha para os QGs, via rádio, foram aperfeiçoadas e, a partir daí, criou-se um número significativo de aparelhos destinados a manter o segredo dessas mensagens tão importantes.

Não é nem necessário dizer que, durante a Segunda Guerra Mundial, esse tipo de informação era de máxima sensibilidade e, caso caísse das mãos dos inimigos, poderia destinar planos militares ao fracasso, afetando seriamente as estratégias de guerra. E assim começa nossa estória.

Bletchley Park foi o local usado pelo governo britânico, durante a Segunda Guerra Mundial, para se decifrar essas mensagens codificadas enviadas pelas tropas do Eixo e interceptadas por uma série de antenas espalhadas pelo país. O Reino Unido juntou, num mesmo espaço, gênios da envergadura de Alan Turing (considerado o pai da computação moderna) e montou uma estrutura destinada a decifrar esses códigos e dar uma vantagem importantíssima para a estratégia dos países Aliados.

No início, a maior parte desse trabalho era feita manualmente. Sim! Manualmente…isso significa que um batalhão de experts e assistentes ficavam o dia todo tentando calcular o código e decifrá-lo. Com tecnologias muito modernas, como lápis e papel – aliado a um sólido conhecimento matemático e, na maior parte dos casos, sorte e intuição. Contudo, com o avanço da Guerra, os códigos alemães ficaram cada vez mais complexos e, assim, embora até fosse possível quebrá-los, o tempo necessário iria ser maior que o desejado para que as mensagens tivessem valor estratégico.

Os gênios em Bletchley Park então começaram a pensar no seguinte: e se montássemos uma máquina que fosse capaz de acelerar esse processo? Sim, porque em muitos dos casos, os métodos aplicados ainda dependiam de uma forte dose de tentativa e erro, ainda que bastante reduzida pelos cálculos estatísticos.

Foram, assim, criadas as primeiras máquinas destinadas a realizar rapidamente essas operações. As primeiras funcionavam com relays, mas depois foram substituídas pelas válvulas. Diversas versões dessas máquinas foram construídas e aprimoradas (Heath Robinson, Colossus Mark I, Colossus Mark II, etc.) e, em 1943, o Colossus Mark I já se encontrava operacional e trabalhando dia e noite para quebrar os códigos alemães – o que foi conseguido.

Infelizmente, como todo esse trabalho era do mais alto nível de sigilo, nada se soube até meados da década de 1970, sendo que os exemplares do Colossus foram destruídos e todos os que trabalharam em Bletchley Park proibidos de comentar qualquer coisa sobre esse período indefinidamente.

Entretanto, vários dos engenheiros, matemáticos, criptógrafos, etc., que trabalharam lá acabaram indo para outros lugares e centros de pesquisa, como a Universidade de Manchester, onde se criou uma avançado programa de pesquisas em computação, culminando inicialmente com o Manchester Mark 1.

Como toda essa estória era sigilosa, muitos acham que isso acabou retardando o desenvolvimento dos computadores na Inglaterra, que estava, ao final da Guerra, numa posição tecnológica na área muito mais avançada que os EUA. Assim, ainda se considera como o primeiro computador da era moderna o ENIAC, embora o mesmo só tenha estado em operação após o final da Guerra, enquanto o Colossus já se encontrava operacional em 1943.

Para quem gosta de História e Tecnologia, é uma visita imperdível. Bletchley Park se situa perto de Londres, sendo uma viagem de não mais que 40 minutos de trem até a estação, que é literalmente colada ao local.

Abaixo coloquei mais algumas fotos que tirei. Espero que curtam. Uma versão mais desenvolvida (e chata) desse post deve aparecer na minha tese também.

Um forte abraço,

Pedro

Eu em Bletchley Park

Fitas perfuradas como input dos dados

Escritório do Alan Turing – Poster motivacional com Churchill

Estação de rádio

Pedro Ivo Rogedo

Pedro Ivo Rogedo é advogado (PUC-Rio), pesquisador do Coppead/UFRJ. Tem mestrado em Administração pelo Instituto Coppead/UFRJ, local onde faz seu doutorado na mesma área.

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