MissMoura convida: Renata Lino sobre Blogueiros vs Agências

Conheci a Renata Lino em 2008, trabalhando como Analista de Mídias Sociais na Agência Frog. Ontem, vi este post publicado como nota no Facebook da Renata e não hesitei e convidá-la para estrear a coluna de convidados aqui. Boa leitura e bom debate!

Quantas vezes, nesses meus 4 anos de estrada trabalhando com redes sociais vi esse debate de blogueiros vs agências e vice versa. Para quem não sabe, sou blogueira e sou analista de mídias sociais, o que muitas vezes me dá uma visão mais ampla dos dois mundos. Não que seja pró-blogger ou algo assim, nunca tive a capacidade de ganhar dinheiro com meus posts apesar de amar escrever, mas o blog é a minha ferramenta de desabafo desde os áureos tempos que um “fotoblog” era novidade para alguns. Vamos as minhas opiniões sobre certas “discordâncias” dos dois mundos?

1. Contratou? Pague! Blog dá trabalho.
Visão como blogueira: O blog é um trabalho, onde demanda tempo gasto, dedicação em tempo integral, preocupação com media kit, dados do analytics, melhorar os rankings, leitores de feed, quase um se vira nos trinta para ter o ganha pão… Por isso, se contratou pague o meu serviço e valorize mesmo que não tenha gerado os “frutos” esperados, afinal, me dediquei para apresentar o melhor texto possível.

Visão como agência: Os clientes não querem saber os problemas que o blogueiro ou a agência teve, cobram-se números, então, ao contrário da visão blogueira, o texto muitas vezes é o de menos, o que vale é o quanto de produtos, interações e gráficos podemos impactar com isso. Por isso, muitas vezes, ficamos entre a cruz e a caveirinha vendo a dedicação do blogueiro e a cobrança do cliente e se eles não nos pagam por isso, muitas vezes não temos capital para repassar o pagamento. É a famosa discussão do ROI.

O que eu penso?
Como blogueira busco sempre pagar aqueles que participaram, para que o valor contratado seja cumprido, seja com brinde, seja com prêmios, seja com valores. Palavra dada tem que ser palavra cumprida. Não à toa já recebi elogios de alguns blogueiros por e-mail.
Mas por outro lado, sei que o blogueiro tem amigos e que pode fazer aquele post “bombar” pedindo ajuda a amigos para ficar bem na fita com relação a números. Vide um exemplo de um publi recente que paguei e esgotaram os produtos no estoque e outro que não teve repercussão e que o blogueiro nem divulgou em suas redes pessoais.
O mesmo vale para aqueles mimos que a gente manda e que precisamos de repercussão mas eles falam só pagando, mas o que não percebem é que muitas vezes isso é uma análise daqueles que valem a pena considerar no futuro, ou não. Conversando com o Rafael Justplay do Diário de um casal percebo que falta muito diálogo principalmente relacionado a isso, mas o blogueiro tem que estar disposto a negociar e a agência a ouvir seus questionamentos.
Diante disso, o meu meio termo é primar pelos blogueiros que se dedicam a campanha, ou até valorizam mimos que fogem dos pagamentos para mostrarem o poder que tem, mas ao mesmo tempo corro atrás que o pagamento saia e saia na data combinada.


2. Blog é lugar de opinião, não é jornal o posicionamento tem que ser diferente.

Visão do blogueiro: As agência querem que babem a marca, que faça publieditorial falando maravilhas de coisas que nem sempre concordam. O blog é um trabalho, mas diferente de jornal, tem opinião, e o blogueiro tem que ter direito a liberdade de expressão e a adequar o texto aos seus leitores. Sabemos mais que a agência e o cliente, o perfil dos leitores e quando estranhariam um texto.

Visão de agência: O cliente não quer saber opinião, quer reverberação e mexer no texto só por não concordar é no mínimo anormal para grandes empresas já que pagou-se pela divulgação. Quer ser parcial e dizer sua opinião não venda publieditorial! Mexer no texto sem autorização prévia do cliente gera uma discussão do cliente com o atendimento e finalmente com os analistas. Gera desconforto generalizado na agência e reuniões de alinhamento.

O que eu penso?
Nessa situação eu concordo mais com a visão blogueira. Eu disse mais… Não, completamente.
Estamos pagando para eles escreverem o que realmente pensam, de positivo e de negativo e nós, como agência, temos que conhecer o perfil de cada blogueiro para saber o que vale ou não, e se ele toparia ou não. A agência precisa entender target do blog e o perfil do blogueiro, esse é o nosso trabalho. Ou até, ter alguém que possa perguntar a eles se topariam ou não.
O único ponto que discordo da visão blogueira nesse caso é a exposição que eles fazem falando mal de uma marca que pode ser cliente da mesma agência que o contratou para outra marca, prejudicando o trabalho da agência.
Para ser mais clara, usarei eu mesma como referência. Não é de hoje que falo mal de uma empresa de internet e tv a cabo, mas como profissional e com meu perfil pessoal na rede, percebi que esse pode ser meu cliente no futuro e que estarei prejudicando a imagem da minha agência para ganhar o meu salário.
O mesmo vale para quem é blogueiro, se você é sempre cogitado por aquela agência, ela sempre paga o que lhe deve, cuidado com o que fala na rede, pois você pode prejudicar quem paga o seu “salário. Ou seja: fale o que pensa, tenha liberdade de expressão, mas pegue muito mais leve se comparado a alguém que não quer ganhar dinheiro com ferramentas de redes sociais.

3. Panelinha. As agências fazem panelinha.
Visão do blogueiro: As agências sempre cogitam os mesmos blogueiros para as mesmas ações. Com tantos blogs no mundo as vezes elas primam por um que nem tem tanta reverberação ou o target da ação porque fulano(a) é amigo do analista responsável. Além disso querem tudo pra ontem e não entendem que temos lista de prioridades, outra ações na lista ou não temos como encaixar nesse momento.

Visão da agência: Os blogueiros não sabem os prazos que os clientes pedem, são 24h, às vezes 48h, para apresentar planejamento com a lista dos blogs, comunidades, fanpages, grupos, perfis de cada rede que ativaremos ou contrataremos alguma ação. É prazo pra tudo, posts estarem no ar, indexação, entrega do planejamento e tudo é para “ontem”.

O que eu penso?
Nessa hora eu sou muito mais a opinião da agência. O blogueiro quer que eu o cogite mas quando mando e-mail, ou envio mensagem no facebook, ou no blog, nunca respondem a emergência e não tem valor no seu media kit, quando tem media kit. E além disso, muitas vezes, tenho que acionar algum blogueiro ou blogueira amiga pois eles não disponibilizam sequer um e-mail de contato e não olham os e-mails do fale conosco.
Por isso, antes de cobrar que as agências fazem panelinhas, esteja acessível ou disponibilize um media kit com valores. Uma dica maior ainda, que muitos blogueiros já fazem, mande e-mails para os analistas informando o valor do seu publi ratificado, crescimento das suas estatísticas. Quem quer dinheiro, corre atrás dele.
Tenho pessoas que nem dão tanta “reverberação” assim, mas cogito por sempre estarem ali dispostas a se dedicarem, a participarem, a dizerem “Eu quero trabalhar e facilitarei a sua vida pois entendo o que vocês passam com o cliente, sei que posso ser um pouco menor que algumas blogueiras que está negociando, mas pense no custo benefício”. E essa frase está entre aspas, pois foi uma história verídica em que a blogueira acabou ganhando com isso o meu budget da ação.

4. Os analistas se acham. Os blogueiros se acham.
Visão do blogueiro: Por poderem contratar quem eles acham melhor, querem botar banca.

Visão da agência: Por esse blogueiro ter esse impacto, acha que pode mandar e desmandar, pedir o valor que seja e não entende budget.

O que eu penso?
Tem gente que você vai com a cara, tem gente que não. Tem gente que se acha o último biscoito do pacote Globo da praia inteira, tem gente que não. Mas se eu preciso baixo a crista, mas se me humilhar por ser analista, por mais maravilhoso que seja, não cogitarei na próxima para não me estressar. Toda humilhação tem limite e temos tempo e vários clientes no nosso pé.
Ao mesmo tempo, já botei banca, pra defender a camisa da minha empresa, do meu cliente, da minha ação.
Acho que a melhor maneira nos dois casos eram as pessoas se falarem e conversarem, mas no final, como envolve dinheiro, sempre fica a lei da politicagem… E vamos vivendo.
Acho que se os blogueiros entendessem mais o dia-a-dia da agência e estas se propusessem a entender a vida do blogueiro, muitas destas rusgas diminuiriam.
Certo? Errado? Não sei… Só sei que essa é minha opinião e qualquer opinião contrária será MUITO BEM VINDA!

Quero propôr em abrirmos os canais a conversação! Se quiserem, comentem, debatam, passem a diante, critiquem… O que acharem melhor. E se alguém um dia quiser, quem sabe as próximas palestras sobre monetização nas desconferências terão abertura para um diálogo sincero entre blogueiros e agências?

Patrícia Moura

Patrícia Moura é Publicitária, Especialista em Mídias Digitais e professora em cursos de Pós-graduação e MBAs em Marketing digital.

19 comentários sobre “MissMoura convida: Renata Lino sobre Blogueiros vs Agências

  1. Conheci a Renata mais ou menos nessa época e já era notória a preocupação dela com todos os participantes do jogo dos blogs. É normal ver gente ainda no velho esquema “cheguei agora e já quero sentar na janelinha”, assim como há quem “guarde lugar” pra galera. Parabéns pra Renata pela abordagem crítica do meio. Parabéns pra Miss Moura pelo espaço aberto.

  2. Muito boa a discussão!

    Sou publicitário e blogueiro (Não necessariamente nessa ordem rs). É difícil mesmo entender os dois lados e fazerem eles se entenderem é mais complexo ainda rs.

    Mas acho que as agências deviam baixar mais a bola quanto aos blogueiros, ja escutei alguns profissionais de Mídia falando que os blogueiros não enviam seus midiakits e que os blogueiros se acham muito.
    Mas enfim, é muito complicado, blogar da um trampo e devemos ser valorizados mais!!

    Parabéns pela discussão!!

  3. Parabéns pelo post! Trabalho com Mídia Digital a quase dois anos e sou blogueiro a quase um ano. Mesmo assim ainda tenho muita coisa para aprender. Essa matéria me deu uma visão mais ampla de como funciona esse esfera Agencia/Blog. Muito bom!

  4. Praticamente todos os blogueiros escrevem de casa.
    Talvez a solução para uma harmonia é convidar esses caras pra produzir os posts na agência.
    Assim eles entederão como funciona a rotina de uma ação.

    • Oi Alberto,

      Não sei se essa seria uma boa solução por alguns motivos:

      1. Transporte – Muitas vezes a agência é do Rio e contrata-se muitos blogueiros de São Paulo, por exemplo, o que ficaria inviável essa presença offline.

      2. Administração do tempo – às vezes o horário que o blogueiro tem disponível não se adequa ao da agência e vice versa. Além disso, os blogueiros negociam com várias agências o que “bate de frente” com a organização da agência no gerente de projetos, atendimento, reuniões, calls… Perde-se a dinâmica.

      Mas muito obrigada pela sugestão, mande outras, por favor! Todas as ideias são importantes para tentarmos alinhar essa relação tão conturbada!

  5. Texto bastante interessa que me ajuda (na posição de blogueira) a entender um pouco mais o “outro lado”.

    Quanto a questão de que tem blog e nem media kit tem, isso dá uma raiva tremenda. Montou um blog, se auto denominou blogueiro e resolveu ganhar algum dinheiro com isso? Se organize e não manche a categoria.

    Deve ser graças a blogueiros como esse que, muitas vezes, a agência que entra em contato conosco nem quer saber de media kit, vai logo dizendo seu preço e você que se adeque ou não. Muitas vezes é melhor não ganhar esse dinheiro (que na maioria das vezes vai estar abaixo do valor estipulado por você no seu media kit) e mandar de volta um e-mail apresentando o seu blog, as suas estatíticas e o valor estipulado por você.

    Mas esse texto também me fez entender o meu erro em relação a divulgação de publieditoriais. Concordo com você e acredito que todo publieditorial merece o mesmo destaque que os meus outros posts. Se uma marca resolveu associar seu nome ao meu blog, o mínimo que eu posso fazer é também me comprometer e associar meu blog à marca.

  6. Parabéns pelo texto. Eu, como blogueiro, já conversei muito com alguns parceiros que trabalham em agências e tento sempre entender o lado deles. Geralmente não tenho problema de relacionamento com nenhuma agência, mas isso é porque eu corri atrás de tentar entendê-los. Acho que todo blogueiro deveria fazer o mesmo, bem como todo analista de mídias sociais deveria ter um blog (e tirar renda dele) antes de trabalhar em agências.

  7. É ótimo a Renata ter a visão dos dois lados, pois a postura dela fazer questão de honrar os compromissos da agência é notável.

    Desta forma, eu faria o publieditorial para o mesmo dia (como geralmente acontece)se eu soubesse que a agência iria pagar no dia combinado. Infelizmente isso não acontece em algumas agências.

    E concordo que se esse debate acontecesse nestes grandes eventos de mídia social seria bem produtivo.

  8. Ótima discussão levantada aqui. Parabéns Renata.
    Procuro sempre entender os dois lados também, apesar de ser apenas blogueiro, pois acredito que mais do que um publi e um pagamento, isto é uma relação profissional entre profissionais.

    Dar condições para que o blogueiro trabalhe bem é um ponto positivo da agencia, assim como trabalhar bem para que a agencia atinja o objetivo da ação é um grande atrativo do blogueiro. É uma troca.

    Estas relações precisam melhorar, mas acredito que os bons profissionais de ambos os segmentos já perceberam a necessidade de manter uma relação bacana.

    Parabéns a Patrícia pelo conteúdo trazido aqui no blog, tá muito bacana. :)

  9. Queria propor outro tema que ficou no ar com este artigo. Queria entender de verdade: o que se cobra de um blogueiro? Qual a diferença ética nesse caso? Penso que pagar para que alguém fale da marca é publicidade e, se o blogueiro é pago para dar uma opinião, deve informar o fato aos leitores – assim como acontece com jornalistas cujas viagens são patrocinadas por empresas, eles citam o patrocínio no final da matéria.

    • Aleteia, geralmente as próprias agências e os blogueiros concordam que o post deve ser claramente identificado como publieditorial para seguir as normas éticas de um anúncio deste tipo veiculados em jornais e revistas.

  10. Cheguei aqui através de uma tuitada do @Interney, não te conhecia e achei sensacional a sua visão como profissional. Vejo muitos amigos queimando determinadas marcas e depois fazendo publi para a marca que eles queimaram. Não pega bem! Do mais, parabéns pelo texto, irei ler mais o seu blog, gostei da sua visão.

  11. Renatinha,
    Essa me lembra uma das últimas conversas que tive com você, no blogcamp do ano passado. E digo mais, o nada mudou na relação entre as duas partes e pela minha experiência não deve mudar, se não houver muita conversa entre quem tem o dinheiro e que luta por ele.

  12. Achei esta entrevista muito elucidativa sobre o mercado das grandes agências e grandes clientes. Entregam qualquer coisa, mesmo que não funcione, porque precisam ser rápidas. Clientes que pedem porcarias impossíveis e querem que a nova mídia funcione como a antiga, só porque tem dinheiro.
    Blogueiros que querem seus cinco minutos de fama e algum dinheiro no bolso vendendo sua opinião de forma ridícula e sem nenhum compromisso com a verdade. Blogueiros, novamente, se tornando cada vez mais amenos e chapa branca para não se queimarem com clientes potenciais. Até que se perca toda a essência.
    Achei triste e até me enojou ver isso dito de forma tão sincera. Eu achava que o problema estava na minha empresa por não conseguir fazer um planejamento de campanha em 24h. Na verdade não consigo planejar nada em menos de uma semana. Agora descubro que estou em paz e, no meu entendimento, no caminho certo. Não vou empurrar qualquer porcaria só para atender prazos malucos de clientes que querem impor suas vontades de reis em um ambiente que é, na sua essência, descentralizado e colaborativo. Um cliente que não entende isso não tem perfil para fazer marketing digital.

  13. Caramba, simplesmente sensacional o texto.
    São duas visões bem diferentes. Foi ótimo saber como as agências pensam e agem.
    Sou blogueiro de turismo há mais de 15 anos.
    Parabéns e vida longa aos blogs! 😉

  14. Adorei também. Estou profissionalizando meu blog há pouco tempo e não sabia desses lados. Foi muito esclarecedor pra mim. Parabéns pelo texto, espero que essas interações melhorem ao longo do tempo.

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