15/07/11

O efeito trickle-down

Já que essa ideia está começando a bombar outra vez nas pesquisas da nossa área, resolvi, a pedido da Patricia, fazer um post sobre ele. Espero que curtam! : )

A teoria

O termo, em linguagem simples, significa algo que muitos de nós já vimos mas não sabíamos que tinha esse nome. Lembra quando o celular era um aparelho caro, com conta cara e difícil de se obter? Então. Naquele tempo, normalmente quem tinha um celular era alguém com grana (ou então que trabalhava com ele, cedido pela empresa – mas mesmo assim, continuava caro). Os minutos eram caríssimos, a recepção péssima…mas tudo bem: era algo raro, novo, high-tech. Enfim, possuir um celular era um claro sinal de status social – ou que você era rico, ou importante, ou algo do gênero. Contudo, com o passar o tempo, o custo do celular cai, a cobertura melhora, mais pessoas vão tendo acesso, e o celular vai, aos poucos, deixando de ser um objeto exclusivo para se tornar algo do cotidiano. Nesse meio tempo, contudo, surgem novas formas de diferenciação social – veja, por exemplo, o papel que o iPhone tem nessa cadeia toda.

Mas, muito antes do celular, o sociólogo alemão Georg Simmel já havia percebido esse efeito, num contexto que no qual até hoje ele é evidente: a moda. Simmel analisa, em seu artigo de 1904, que processo sociais seriam os responsáveis por isso. Um dos insights mais importantes foi a percepção que os comportamentos adotados pelas classes sociais mais altas tendiam, com o tempo, à imitação pelas classes mais baixas.

Hoje em dia temos até palavras mais bonitas para descrever partes desse processo (o “aspiracional” e congêneres), que contribuiria para a difusão de determinada moda ao longo da cadeia social. Assim, com o passar do tempo, as novas modas deixavam de ser tão novas assim, sendo adotadas por uma parcela cada vez maior de pessoas.

Com isso, o papel inicial de diferenciação social daquela ação ou vestimenta acabava por ter sua utilidade reduzida. O que levava a…? Bem, como vocês já devem ter sacado, isso levava à criação de novas coisas pelas elites, principalmente pela vontade de se diferenciar das classes mais baixas, que haviam “capturado” aquele novo hábito.

Obviamente esse resumo que fiz aqui é bastante precário e não honra o trabalho do Simmel, mas acho que a ideia principal está aqui. É legal que vocês percebam esse movimento social de cima para baixo e a pressão por renovação nas classes mais altas uma vez que a ação se torne “popular”.

É importante ressaltar que, embora a proposta do Simmel seja extremamente importante, não deve ser considerada como uma verdade absoluta – aliás, nada deve ser considerado na nossa área como verdade absoluta. Existem movimentos que fogem desse padrão, em maior ou menor grau. Vejamos, por exemplo, o caso de apropriação por uma classe mais alta de hábitos de uma classe mais popular, como o funk carioca tocado nas boates da Zona Sul e Barra. Evidentemente há diversas razões para isso, que não apenas uma lógica mecânica social; contudo, é um exemplo de como o trickle-down original não necessariamente se aplica para tudo.

Essa ideia foi tão revolucionária que até hoje mantém sua importância. Apenas para dar uma ideia, o clássico livro do sociólogo Everett Rogers, A difusão das inovações, passa pela obra de Simmel, assim como pela de um outro importante autor da área, Gabriel Tarde (A Opinião e as Massas).

A prática

Já vi algumas tentativas de se enquadrar, simplisticamente, alguns fenômenos na nossa área como exemplos de Trickle-down. O Orkut no Brasil é um deles.

Uma proposta que existe por aí é que o Orkut ‘perdeu’ (no sentido de abandono) muitos de seus usuários com a introdução do Facebook, visto à época como algo mais “elitizado” (o que quer que isso signifique). Embora acredite que tenha havido, sim, esse tipo de transferência, seria mais cauteloso para dizer que é um exemplo de trickle-down sem maiores pesquisas.

Um ponto importante e que ainda permanecerá sem solução por um bom tempo é o trade-off entre o atingimento da massa crítica em uma rede social, através de suficiente externalidade de rede, e o crescimento da rede a ponto de perder utilidade percebida para seus usuários antigos. Traduzindo em bom Português: como ter um balanço entre o número mínimo de pessoas para uma rede “dar certo” e evitar que a mesma fique tão tumultuada/depreciada que perca o interesse de seus atuais usuários?

Esse é um ponto que o Simmel pode nos ajudar a compreender. Se acreditamos que uma parcela relativamente significativa dos que utilizam novas redes (ou serviços, etc.) o fazem para se diferenciar socialmente, então chegaremos à conclusão que esses serviços têm uma expectativa de vida que pode ser definida a partir de um ponto X, localizado entre o ponto crítico de rede e a perda de interesse pelos usuários. Ou seja: mesmo sendo uma rede importante e com muitos usuários, o caráter de novidade impelirá alguns deles (quem sabe os early adopters?) para outras novas, deixando a primeira com a sua externalidade de rede mas, ao mesmo tempo, reduzindo lentamente a sua utilidade percebida para esses usuários.

O interessante disso é que pode ser uma justificativa teórica razoável (a princípio) para a coexistência de duas redes sustentáveis com a mesma proposta, pelo menos por um tempo. Quem sabe isso será o que acontecerá com o Google+?

Bem, o único problema disso é que só saberemos ao certo depois que ocorrer….rs

Um forte abraço,

Pedro

 

Referências úteis:

SIMMEL, Georg (1957[1904]). Fashion. The American Journal of Sociology, v.LXII, n.6, pp.541-558, http://www.jstor.org/stable/2773129

ROGERS, Everett (2003). Diffusion of Innovations. 5th edition. New York: Free Press.

TARDE, Gabriel (2005[1901]). A opinião e as massas. 2a edição. São Paulo: Martins Fontes.

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3 Comentários

  1. O efeito Tickle Down na moda é brilhantemente descrito em O Diabo Veste Prada, da exclusividade à massificação. Não encontrei o trecho em video, mas compartilho aqui a transcrição:

    Miranda – Algo engraçado?
    Andréa – Não, nada. É que para mim estes dois cintos são iguais. Eu ainda estou aprendendo sobre esta coisa.
    Miranda – Esta “coisa”? Ah, entendi. Você acha que isso não tem nada a ver com você. Você abre o seu guarda-roupa e pega, sei lá, um suéter azul todo embolado porque você está tentando dizer ao mundo que você é séria demais para se preocupar com o que vestir. Mas o que você não sabe é que esse suéter não é somente azul. Não é turquesa. É “sirilio”. E você também é cega para o fato de que em 2002 Oscar de la Renta fez uma coleção com vestidos somente nesse tom. E eu acho que foi Yves Saint Laurent, que criou jaquetas militares em sirilio. E o sirilio começou a aparecer nas coleções de muitos estilistas. E logo chegou às lojas de departamentos. E acabou como um item de liquidação nessas lojinhas de beira de esquina. E foi assim que chegou a você. E sem dúvida esse azul representa milhões de dólares em incontáveis empregos. E é meio engraçado como você acha que fez uma escolha que te exclui da indústria da moda, quando, na verdade, você está usando um suéter que foi selecionado para você pelas pessoas nesta sala entre uma pilha de “coisas”.

    • Pedro Ivo Rogedo disse:

      Hahaha…verdade! Essa cena do filme é bastante exemplificativa. Tentei achar a cena também, mas acho que a Fox deve ter emitido várias “cease and desist letters” e não tem no YouTube. Se eu achar dou uma atualizada no blog. Obrigado!
      PS – Se não me engano, a cor que ela fala é o azul cerúleo – mas só sei da existência dessa tonalidade porque é exatamente uma das tintas que uso quanto pinto a óleo. : )

  2. Engraçadinha disse:

    Pedro, eu entendi tudo o q vc falou.
    Muito bom o seu post.

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