Muitos profissionais e pesquisadores discordam da citação “nova Classe C” ou até mesmo o rótulo “Classe C” em títulos como esse, visto que a Classe C não é uma novidade. A massa sempre foi composta por aqueles, que como diz o sábio Bauman em Modernidade Líquida, “lutam desesperadamente para fazer as suas frágeis, mesquinhas e transitórias posses durarem mais tempo”.
O que mudou nesse status quo é que jamais pensou-se a internet e a comunicação nas mídias digitais para a massa. E o pico da pirâmide (ou aqueles que gostariam de estar nesse posto) tenta subjulgar ou se afastar do que a massa se apropria no ciberespaço (impossível não relembrar do efeito trickle down aqui). Enquanto isso, a modernidade tecnológica cria espaços de interação onde membros se aglutinam em grupos e definem as “normas locais”. Quem é nativo e quem é haole, é definido pelos early adopters, aqueles que chegam primeiro e se sentem síndicos do espaço.
Nessa dinâmica, o facebook tornou-se o espaço novo. E, de acordo com os objetivos de Zuckerberg, será sempre o novo, sempre o beta, obrigando o usuário a aprender, reaprender, repensar a rede e jamais rotulá-la como antiquada. A lógica me lembra muito as boites do Rio de Janeiro, que muitas vezes, mudam de nome e decoração uma vez ao ano, mantendo a mesma estrutura e donos, apenas com objetivo de retenção do público, uma tradução cotidiana e off-line do “beta”.
O que se tornou velho, antiquado e apropriado pela massa, no ciberespaço, foi o Orkut e, ao contrário de fazer um movimento almejando aparentar o modelo cool e inovador do facebook, vem investindo na retenção e no engajamento da massa. E, pra isso, utiliza agora uma das linguagens mais populares da humanidade: o humor.
Lançada no final de setembro, a comunidade Orkut Desafios, parece que vem para repetir o sucesso quase instantâneo do Orkut Ao Vivo. Com menos de um mês de vida e quase 3 milhões de membros, a ação utiliza o audivisual, o fórum e as hashtags do Twitter para interagir com o público e lançar questões que premiam os participantes mais engajados.
O engajamento aqui começa desde a hora que são lançadas os quizzes até mesmo o tempo-resposta. O usuário é impelido a voltar na comunidade, participar do tópico e assistir novos vídeos para conquistar os prêmios. Enquanto os “ciberantenados” de última geração discutem “gamification”, o Orkut Desafios faz perguntas simples que permitem que usuários com qualquer nível sócio-cultural possam participar.
Conclusão: as métricas falam por si, basta fazer uma simples análise das visualizações dos vídeos, dos tópicos da comunidade e dos membros associados para perceber que antes da morte do Orkut, muitas lições de simplicidade ainda precisam ser aprendidas.
O último relatório do instituto ComScore sobre a ascensão das redes sociais na América Latina aponta que 90,8% dos brasileiros que acessam a internet acessam redes sociais. Mas o que isso significa para planners, criativos, empreendedores e clientes?
1. Isso significa que a ascensão das redes sociais no Brasil é um caminho sem volta.
2. Isso significa que o marketing em mídias sociais continuará a ser a cereja do bolo nos planejamentos digitais por um bom tempo.
3. Isso também significa dizer que cada vez mais empresas irão se conscientizar da importância de interagir com seus consumidores on-line.
4. Isso também pode afirmar que oportunidades de trabalho junto ao marketing digital continuarão sendo abertas…
As conclusões parecem precipitadas, mas não podemos deixar de afirmar que o crescimento do mercado é uma tendência. Segundo o infográfico do Mashable, o Brasil tem apenas 37,8% da população conectada e os brasileiros já são fãs incondicionais das redes sociais.
O brasileiro é plural e se adapta rapidamente a novas redes sociais on-line. A prova disso são redes como Tumblr e Linkedin no TOP10. A surpresa da imagem que segue abaixo é ver a companhia Vostu, responsável pelos jogos Megacity e Café Mania, sendo citada como rede social. No site da companhia não encontramos informações que expliquem essa inclusão no Top10 Brasil.
Como sempre, os institutos de pesquisa e canais de comunicação se confundem na hora de elencar as principais redes sociais. A falta de critério do que é ou não é uma rede de relacionamento já deu origem a outros posts meus sobre o assunto. Uma prova dessa confusão é o ranking do infográfico do Mashable que inclui Blogger e WordPress na lista.
O que o relatório da ComScore apontou sobre a briga Orkut X Facebook:
• No Brasil, o Orkut foi a rede de relacionamento mais visitada, alcançando 35,7 milhões de visitantes, Isso significa que o Orkut cresceu em visitas 20% em relação a Junho de 2010.
• Enquanto isso, o Facebook obteve um crescimento de 192%, alcançando em números absolutos 24,5 milhões de visitantes.
• Há uma intersecção de usuários no que diz respeito aos acessos. Cerca de 20 milhões de pessoas que acessaram o Orkut também acessaram o Facebook, sendo possível concluir que há mais uma divisão de atenção do que um possível processo migratório.
• Ainda assim, os usuários do Orkut no Brasil são mais participativos do que no Facebook. Um visitante médio do Orkut passou 4,3 horas no site em Junho de 2011, enquanto um visitante do Facebook passou 1,6 hora durante o mês.
O relatório ainda mostrou que no Brasil, as mulheres somaram 58,7% de todo o tempo gasto em redes sociais. Pesquisas anteriores já provaram que as mulheres são as que mais interagem e participam de processos de decisão de consumo de toda a família. A diferença entre gêneros nas redes sociais on-line pode parecer pequena, mas o consumo de produtos de higiene pessoal e cosméticos movimentou, somente em 2010, 37,4 bilhões de dólares no Brasil e marcas como Avon, Boticário e L’oreal Paris já possuem perfis nas principais redes sociais on-line para se comunicar com suas consumidoras.
Cada vez que vejo uma palestra, simpósio, seminário ou congênere sobre mídias sociais, fico sempre pensando no lado dos empresários. Acho que deve dar uma certa ansiedade, principalmente por parte de executivos de grandes empresas com culturas corporativas fortes e de difícil mutação.
Já é quase uma piada em nossa área o dito que “viral não se faz” – tudo bem, isso dá pra entender. Mas proponho que pensemos no mesmo problema sob a ótica da cultura corporativa. É possível mudar a cultura de uma empresa de forma a possibilitar o florescimento de um ambiente propício às mídias sociais?
Adiantando minha opinião, acho que não.
O que se chama hoje de cultura corporativa pode dar a falsa impressão de ser algo monolítico e quantificável através de algumas simples perguntas em um questionário (tipo: “você acha que a visão da empresa é compartilhada pelos funcionários” ou outras coisas parecidas). Isso é um erro colossal. Primeiro: a própria ideia de cultura corporativa já causa um pouco de estranheza para as pessoas da área de Antropologia e outras ciências Humanas e Sociais, devido à ideia de cultura em si. Segundo: cria-se a falsa impressão para algumas pessoas que há duas culturas: uma ‘social’ e outra da empresa, o que é um absurdo. Como se a empresa existisse em Marte e fosse administrada por ETs.
É uma falácia achar que a cultura de uma empresa pode ser mudada facilmente, se é que pode ser mudada. Alguns casos de mudanças mais significativas de cultura em empresas já estabelecidas ocorreram em momentos nos quais essas mesmas empresas se encontravam à beira da falência, justamente por não terem percebido e reagido adequadamente às mudanças no ambiente. Um dos exemplos é a IBM.
Essa discussão me parece mais uma reedição, em novos termos, de um clássico problema de Administração, que é uma espécie de “ovo ou galinha”: a estratégia molda a estrutura ou a estrutura molda a estratégia da empresa? Para nosso desespero, as duas opções estão corretas, em maior ou menor grau.
É lindo falar que mudanças são necessárias, que não podemos ter aversão às mudanças, etc. Acho isso uma profunda idiotice. No fundo, não há como levar uma vida sempre em mutação, pois temos a necessidade de algum tipo de certeza, algum tipo de permanência, até para termos um ponto referencial. E nem sempre as mudanças são boas, ou gerarão bons frutos no longo prazo. E, como as empresas são formadas por pessoas, nada mais natural que esperar que essa “cultura” corporativa seja um reflexo direto de pensamento, ideologia, ética, práticas e conhecimentos dos que a integram.
Assim, depois que já se tem uma prática corporativa, fica muito difícil mudar – e mesmo a mudança, celebrada por consultores que, sabiamente, desaparecem após completá-las, normalmente é efêmera e potencialmente catastrófica. Pessoas que são forçadas a aceitar mudanças que não acreditam ou, pior, que viram meras repetidoras de mantras corporativos sem sentido.
É um pouco por isso que eu acho que a “implementação” de mídias sociais nas empresas com forte ‘cultura’ corporativa acaba sendo mais um paliativo que propriamente uma mudança. Já havia abordado em post anterior isso, mas cada dia que passa minha convicção sobre o tema fica mais forte.
Não é por acaso que empresas menores e mais jovens têm, em geral, maior facilidade para questionar os cânones corporativos e implementar coisas que suas contrapartes maiores jamais fariam. Um pouco de como era o Google no início – embora hoje já se tenha tornado exatamente aquilo que inicialmente lutava contra.
Bem, é isso. Peço desculpas pela demora em escrever algo para o blog – tirei umas férias (merecidas!) e fiquei completamente afastado da Internet. Adoraria ouvir a opinião de vocês.
Ainda hoje ouvimos falar em posts, matérias, palestras e universidades, que para se tornar um profissional de mídias sociais não há necessidade de formação específica. Há bastante tempo eu venho escrevendo e defendendo a profissionalização dentro da área da Comunicação e/ou do Marketing.
Disciplinas como Comportamento do Consumidor se tornaram praticamente indispensáveis para elaborar estratégias concisas que tragam resultados “no mundo real” para os clientes. O Marketing de busca também é outra ferramenta importante que, em conjunto com o planejamento de mídias sociais, pode tornar as ações mais acessíveis ao target. O vídeo abaixo exemplifica um pouco isso. Assistam e tirem as suas próprias conclusões.
Este é um post rápido, com objetivo de manter os nossos diálogos ativos enquanto eu estou de férias
E se você recebesse um briefing de um banco que gostaria de comunicar aos seus clientes que, usando seu cartão para pagar o cinema, o valor do ingresso sai pela metade do preço?
A ideia da agência que atende o Bradesco foi bem simples, mas nem por isso simplória: chamaram o Marcelo Adnet (queridinho da galera e ainda não tão batido nos comerciais), e criaram uma versão online, no YouTube, de um jogo que literalmente todo mundo já jogou pelo menos uma vez na vida: Mímica. Em suma, o comediante fica fazendo mímicas e o usuário deve escolher, dentre 3 alternativas, qual o nome do filme.
O interessante dessa ação, no meu ponto de vista, não é somente a simplicidade da solução encontrada para o pedido do cliente, mas o uso do YouTube como plataforma para o game. Além de se diferenciar do que tem sido feito por aí, usar essa rede como base para o jogo, certamente desperta a curiosidade do público, ainda acostumado com hotsites, fanpages no Facebook e seus aplicativos (não estou os desmerecendo, por favor, não me entendam mal).
Vale lembrar que games no YouTube já vem sendo usados há algum tempo, principalmente no exterior, com bastante sucesso.Um dos cases de bastante sucesso foi o vídeo do urso e o caçador, da marca de corretivos Tipp-Ex, onde o usuário digita o que deseja ver o caçador fazendo com o urso. Assista em http://www.youtube.com/user/tippexperience
Só para constar uma “brincadeirinha” dessas custa entre R$ 200.000,00 e R$ 250.000,00 em média. Portanto, nada de inventar moda de propor algo do gênero para aquele seu cliente que tem pouco mais de 10 reais de verba, tá?
Esse post é mais um da série “e-mails que recebo”. Um grande número de pessoas entra em contato comigo via e-mail, gtalk, facebook, blog e twitter perguntando quanto cobrar para trabalhar com mídias sociais ou quanto pagar para que um freela faça a gestão de seus canais.
Quando dou os meus pitacos sobre etapas da gestão dos canais e valores estimados, não é incomum, a conversa ser interrompida por um longo silêncio ou um susto com o investimento a ser feito no que, “teoricamente”, nasceu de graça.
Segue abaixo o descritivo de ações básicas para o start de uma marca nas mídias sociais:
É justo. Muito justo… porém, depende diretamente do porte dos clientes. Ao sugerir o manual como base para um leitor do blog, recebi a seguinte opinião:
“Os valores citados no manual da APADI estão completamente fora da realidade da empresa. Se eu propusesse estes valores para o cliente, ele provavelmente iria rir por pelo menos meia hora e depois me mandar… você sabe pra onde! rs. Obviamente são valores justos, mas como você disse, são para agências”.
Qual é a questão? Existe um exército de pequenas e médias empresas que NUNCA investiram na sua comunicação e que, recentemente, sentiram a necessidade de começar. Conhecendo superficialmente as mídias sociais, estes clientes escolheram estes canais pelos seus benefícios óbvios (relacionamento real time com o consumidor, etc) e por acharem que é possível fazer um bom trabalho com baixo custo.
Seguem as minhas dicas para pequenas empresas:
- Contrate um profissional de mídias sociais com experiência e o absorva para a sua equipe.
- Coloque este profissional junto com a gerência de Comunicação e/ou Marketing. Se a sua empresa ainda não tem este setor, está na hora de criar uma equipe que possa atender a sua demanda.
- Invista no planejamento. O ato de criar perfis corporativos e sair falando com as pessoas NÃO é estratégia e nem traz resultados significativos para o seu negócio.
- Se receber o orçamento de uma empresa ou agência para fazer todos os serviços listados acima por apenas R$1,99 e uma bala Juquinha de troco, desconfie!
Você já deve ter se deparado com essa chamada misteriosa entre os intervalos comerciais da Globo. Dá pra entender que é malhação, dá pra entender que é uma chamada (possivelmente para uma nova temporada), mas não dá pra entender o que o número 1046 está fazendo ali. Eu vos respondo que é exatamente essa a intenção.
O número 1046 provavelmente não representa nada demais na trama (posso estar errada com essa afirmação), o que ele representa é uma ação de crossmedia bem pensada e, possivelmente, um tentativa de narrativa transmidiática ou transmedia storytelling, ao longo do tempo.
O que importa nisso tudo é que o buzz em mídias sociais já está instaurado. É possível encontrar inúmeras menções sobre a chamada no Twitter, vários tópicos de comunidades do Orkut discutindo o teaser, alguns usuários tentando fazer contas loucas para chegar ao número mágico e centenas de blogs replicando a chamada, o release oficial e suas teorias da conspiração.
E como não poderia deixar de ser, publico abaixo a melhor dentre elas:
“Malhação, tal qual o público conhece há 16 anos, vai acabar. O programa, que desde a sua estreia é reformulado todos os anos, será substituído por um projeto assinado por Mário Márcio Bandarra e a dupla Ingrid Zavarezzi e Ajax Camacho, que fez “Beijo, me liga”, exibido no Multishow ano passado.
A marca “Malhação”, entretanto, será mantida e o novo programa se chamará “Malhação conectados”. A decisão dividiu opiniões na Globo. Mas venceu o argumento de que ela é forte demais para ser descartada.
O programa vai para o núcleo de José Alvarenga Jr. e será voltado para as redes sociais, a exemplo de “Beijo, me liga”. Agora serão apenas 12 personagens, um deles, inspirado em René Silva, twitteiro do Complexo do Alemão.”
Vamos aguardar para ver o desfecho dessa história, mas ele já é mais uma prova viva de que o crossmedia traz impactos significativos nas redes sociais, apliando a discussão sobre a temática (com o auxílio do teaser) e, possivelmente, atraindo um maior número de espectadores pra estreia.
O conteúdo é rei, como já dizem os gurus da Social Media e, garantir a audiência ao longo da trama, depende diretamente disso e não da estratégia de lançamento.
Agradecimento a @FernandoSouza e @Brunohbrum, que passaram links que contribuíram com este conteúdo.
Antes que se inicie a profusão dos “7 métodos para sua empresa usar o Consumo Colaborativo” ou então “781 passos para o sucesso”, resolvi falar um pouco sobre esse tema que já está começando a bombar no Brasil.
Por sinal, mesmo na era da Internet, continuamos a ter um certo atraso em relação às coisas que são debatidas fora do país. Como aconteceu com o Henry Jenkins, cujas ideias só começaram mesmo a se difundir pelo mercado brasileiro quase um ano após a publicação do Convergence Culture, a proposta do Consumo Colaborativo ainda engatinha no nosso mercado, embora já esteja a pleno vapor fora do país.
Embora a ideia em si não seja nova, a forma com que ela foi apresentada por Rachel Botsman e Roo Rogers no livro “What’s mine is yours: how collaborative consumption is changing the way we live” é digna de louvor. Uma versão em Português pode ser encontrada na Saraiva. E garanto que vale a pena dar uma olhada.
Em síntese, os autores apresentam vários exemplos de coisas que já consumimos de maneira compartilhada. Por exemplo: quando você aluga um carro numa locadora, você está usando um veículo que não é seu, pelo tempo necessário para cumprir sua utilidade. Da mesma forma, quando você aluga um traje de festa, o mesmo processo ocorre.
Mas o consumo colaborativo não é a mesma coisa que o compartilhamento como o conhecemos. Trata-se de uma mudança na própria forma de se pensar o “ter”.
Paremos para pensar. Digamos que você tenha um martelo em sua casa. A não ser que você seja carpinteiro ou algo do gênero, muito provavelmente o martelo fica sem uso durante a esmagadora maioria do tempo. O mesmo acontece, em muitos casos, com um carro. Todo o tempo que ele está no estacionamento é, infelizmente, um tempo sem uso. O carro não só não tem a utilidade desejada como também ocupa espaço.
E se pudéssemos compartilhar esses bens com outras pessoas? Imagine um prédio em que, ao invés de cada morador ter um conjunto completo de carpintaria, o condomínio o tivesse e alugasse por um valor módico para quem necessitasse. Não seria interessante? Então. A proposta gira por aí. Na verdade, trata-se de maximizar a utilização dos bens (troca de brinquedos, quartos livres em casa, etc.) que, de outra maneira, ficariam ociosos.
E o problema vira, então, econômico. Claro que é muito bonita essa ideia e, se o mundo fosse perfeito, talvez o velho sonho político dos bens comunais fosse a solução perfeita. Mas não é assim que ocorre.
Há sérios problemas no casamento entre oferta e demanda nessa situação, muitas vezes gerados por ineficiências no processo comunicativo. Como eu saberei que o meu vizinho tem um martelo e que ele estaria disposto a me emprestar?
Aí entram as redes online. Da mesma forma que o efeito da cauda longa, a Internet abre a possibilidade de equacionar esse problema de demanda difusa, provendo informações mais exatas acerca das necessidades e disponibilidades em uma determinada área. E, realizando o casamento entre oferta e demanda, podemos ter uma maior eficiência na utilização desses mesmos recursos. Com um bônus ainda: há a possibilidade, dependendo de como o sistema seja feito, de que não haja troca monetária. Basta ver o exemplo do couchsurfing. Eu hospedo alguém em minha casa com a expectativa de que, caso viaje, alguém da rede fará o mesmo por mim.
Ainda falta equacionar isso com a cultura individualista ao extremo que se tem em muitos lugares; a ideia de compartilhar um carro, para algumas pessoas, parece quase pior que xingar a mãe. Contudo, acho que esse conceito pode ser bastante interessante e, a despeito de várias coisas, pode ser aplicado em sucesso em muitas áreas do nosso cotidiano.
Espero ter ajudado vocês ao despertar um pouco mais de interesse nessa ideia. E, de igual modo, espero tê-lo feito antes que se inicie a profusão de artigos contendo “os 7 passos do sucesso” na área. Ao contrário do que parece – como diria o Luli Radfahrer – não tem essa coisa de “7 hábitos”, “quem mexeu no meu queijo”, “monge e o executivo, e afins. O que tem é muito estudo, dedicação e, sempre, espírito crítico. É ler algo e tentar entender como aquilo funciona na sociedade, sem uma preocupação insana inicial de como se ganhar dinheiro com isso. Talvez, inclusive, se você estudar essas ideias com os olhos de um pesquisador/entusiasta e não de um gestor financeiro/guru de auto-ajuda, é capaz que elas tenham chance de dar certo.
Por fim, nem precisa dizer que é um livro que recomendo. Espero que a leitura do mesmo gere muitos insights e possibilitem a visão do consumo de uma forma diferente de como ele é hoje.
O assunto da computação em “nuvem” não é algo novo. Aliás, é algo que já foi abocanhado por quase todas as mais importantes empresas da área: Google, Microsoft, Apple, Amazon, Oracle, etc. No Brasil, temos também nossas empresas já se embrenhando por esse caminho. Parece ser uma tendência irreversível.
De fato, a ideia em si não é nem um pouco nova. É, na melhor das hipóteses, uma reengenharia conceitual de algo que era padrão nos computadores. Era uma vez um tempo em que computadores eram feios, caros, pesados e muito (mas muito) complexos. Estamos falando aí do período entre 1940 e 1980. Os recursos computacionais eram caríssimos, tanto que qualquer minuto em que a máquina não era utilizada significava prejuízo. Ao invés de ter o seu próprio, você deveria, caso precisasse usar o computador, entrar numa fila e esperar a sua vez para rodar o programa. Isso, claro, se você tivesse sorte de ter um computador disponível em seu campus e, claro, o programa ter sido escrito corretamente. Se desse algum problema, o computador simplesmente não mais executava seu programa (o avô da tela azul) e você deveria quebrar a cabeça para descobrir onde errou – e esperar, outra vez, na fila.
Os computadores foram se difundindo; ficaram menores, mais portáteis, mais baratos. Mas, ainda que continuasse algo caro, já dava para ter o seu próprio (década de 1980) e trabalhar sem depender de filas. Foi a partir desse momento em que se consolidou a prática de armazenar os arquivos no local, sem depender de um mainframe ou algo do gênero – embora isso, de forma alguma, tivesse acabado com os modelos de rede. Os PCs viraram, então, lindos jardins murados. Práticos, mas com pouca conexão ao mundo exterior. E parecia estar ok assim.
Veio a WWW na década de 1990 e o resto da conversa você já conhece. Aumento sucessivo da banda de transmissão de dados e melhorias em hardware e software possibilitaram uma maior conectividade entre os computadores, melhorando a produtividade e, claro, a circulação de conhecimento ao redor do mundo.
A expansão dos dispositivos móveis, em processo concomitante às alterações na dinâmica de trabalho (trabalhar em casa, em deslocamentos, através de smartphones, tablets, etc.), acabou resultando na possibilidade economicamente desejável de se ter uma capacidade de armazenamento e compartilhamento que fosse remota, independente da presença efetiva do arquivo no dispositivo do usuário. Nasce o que conhecemos como a cloud computing – ou computação em nuvem.
Qual o meu problema com isso? Será que sou uma versão moderna de um ludista, que é refratário às novidades? Não, de jeito algum. Em um mundo ideal do Xou da Xuxa, acharia o máximo. Mas não estamos nesse mundo.
Não é de agora que o Google ganha dinheiro bisbilhotando os produtos que ele oferece ‘gratuitamente’ para nós, algo também realizado pelo Facebook e congêneres. Em troca de melhores indicações, produtos, serviços, abrimos mão de uma parcela grande de nossa privacidade, ainda que não tenhamos consciência exata disso.
Particularmente, me preocupa bastante a posição de Eric Schmidt de que, se não desejamos que algo seja conhecido por outras pessoas, não devemos então fazê-lo. E me preocupa porque sei que isso não é apenas a visão de uma pessoa. É mais que isso.
Há diversos riscos na computação em nuvem que não são levados em consideração. As empresas podem até dizer, ou mesmo assinar um contrato dizendo, que não irão bisbilhotar seus arquivos na nuvem. Tudo bem. Não tem problema. Vira uma questão de fé. E mais fé ainda para você acreditar que, num depósito imenso de arquivos, não haverá nenhum desejo de algum órgão governamental (FBI, CIA, etc.) para, digamos, checar o que você escreve. Basta ler que o FBI vai implementar uma unidade de pesquisa de primeira linha para “avaliar” e “pesquisar” o Twitter e as outras mídias sociais.
Isso sem contar na possibilidade de ter os seus dados roubados e divulgados por aí, risco que já corremos atualmente com vários de nossos aplicativos.
Por isso, sempre que alguém me pergunta se eu acho que uma empresa deve migrar para a computação em nuvem, eu digo que não. E não sou idiota de não considerar eventuais ganhos de produtividade com isso. E também sei que, mesmo numa rede interna, há a possibilidade de furto de dados. Mas, abrir os dados mais importantes de sua empresa (ou de sua vida) para empresas que, como já vimos, cedem despudoradamente às pressões dos órgãos de vigilância governamentais, é algo como publicar um vídeo erótico seu e de sua namorada na Internet e achar que ninguém vai ver. Talvez você não tivesse que ter feito o vídeo, em primeiro lugar, como diria Schmidt; até concordo que é uma ideia estúpida publicar isso na Internet. Mas a questão volta a ser, outra vez, que tem o controle real dos dados que você tem. Eu prefiro, pelo menos, tentar resguardar ao máximo as coisas que faço e escrevo. Quem dirá uma empresa. Para aquilo que acho muito importante e que não gostaria que tivesse o mínimo risco de ser divulgado, uso uma tecnologia mais antiga – papel e lápis.
Bem, aproveito para terminar esse post com uma analogia cretina a Aristófanes, em sua comédia As Nuvens, escrita há quase 2500 anos. Quando os cidadãos da polis viram que os novos ensinamentos – o culto às Nuvens, a nova divindade proposta pelo Sócrates da peça – estavam acabando com a estrutura da sociedade que tanto gostavam, trataram de expulsar todo mundo da cidade e queimar a escola herética.
Não pretendo, claro, ser tão radical. Mas acho que um pouco de visão contra a corrente talvez faça bem.
Parece que o livro de Chris Anderson, A cauda longa (The Long Tail), escrito há mais de 6 anos, entra para a Literatura da nossa área como mais uma daquelas obras muito faladas, razoavelmente lidas e pouco compreendidas. E penso isso porque no nosso atual debate sobre métricas ainda temos a preponderância de medidas que, de uma forma mais ou menos explícita, tendem a calcular o sucesso de alguma coisa com base em números absolutos ou generalizações de mercado. A principal lição de Anderson, que era prestar atenção aos nichos (ou seja, à cauda longa), foi sumariamente jogada para escanteio.
Desculpem-me a sinceridade, mas acho que a maior parte das pessoas não conseguiu pegar a coisa. E falo principalmente dos executivos da área. Acostumados a uma lógica econômica de escassez, de soma-zero, esses executivos que passaram alguns meses enaltecendo as vantagens da cauda longa parecem ter se esquecido do que ‘leram’ com a mesma velocidade que começaram a falar sobre isso.
Ainda sentimos na nossa área uma enorme confusão em relação ao quesito ‘métricas’. E, nesse caso, o problema não é das pessoas que as calculam, mas dos que as exigem. Por trás de uma boa quantidade de formas de se medir o sucesso de uma iniciativa em mídias sociais, ainda se tem uma lógica de massa, uma lógica que preconiza o atingimento do maior público possível, independentemente de se isso é bom, ruim ou mesmo adequado.
Parece que estamos ainda na ditadura teórica do IBOPE na área de mídias sociais, onde mais é mais. Os executivos jogam para o tapete (de forma discreta, normalmente) todas as considerações sobre targeting, especificidade do produto, comunicação direta com o consumidor, abraçando vergonhosamente as mesmas e antiquadas noções de massa, quantidade e reach. Embora o papo de Marketing 1-para-1 já tenha mais de uma década, a prática gerencial mostra que isso não passou de um lindo texto para ser debatido em uma tarde de MBA.
Montam-se campanhas criativas, inovadoras e bem planejadas, apenas para que algumas marcas, de diferentes maneiras (algumas mais discretas, outras nem tanto), iniciem a sabatina tradicional focando em quantidade, não qualidade. Focando na massa, não no nicho. Claro que há exceções, mas sinto que uma boa parcela é assim. Medindo o ROI através de critérios absolutos. Utilizando generalizações estatísticas para coisas que são, na verdade, de nicho. É como se eu fosse medir a altura de alguém utilizando quilômetros, ao invés de metros ou centímetros.
Os executivos precisam parar um pouco. Precisam parar e pensar se as métricas que usam são, efetivamente, adequadas àquilo que pedem ou esperam. É, basicamente, parar e pensar um pouco. Questionar os pressupostos das métricas e ver que, embora muitas sejam adequadas à mídia de massa, simplesmente falham em analisar qualquer coisa decentemente em mídias sociais.
Como já se disse muito por aí, é sair do paradigma da audiência e ir para alguma outra coisa. Interator, prosumer, sei lá. O nome você pode escolher, não vai fazer muita diferença. O que vai, efetivamente, mudar alguma coisa é a forma como você compreende os pressupostos metodológicos das métricas utilizadas. E, claro, como isso vai realmente impactar na forma de se medir, adequadamente, as campanhas na nossa área.