Compartilhar o que se assite na TV nas redes sociais já se tornou um hábito para a maioria do jovens, mas só agora alguns institutos de pesquisa estão acompanhando o fenômeno e gerando dados para o futuro da televisão.
Um estudo recente da agência Digital Clarity mostrou que 80% dos adultos com menos de 25 anos usam uma “segunda tela” pra se comunicar com os amigos, enquanto assistem TV e 72% usam twitter, facebook ou aplicativos mobile para comentar o que estão assistindo, segundo matéria do site BBC.
De acordo com uma pesquisa da Nielsen Mobile, mais de 85% dos usuários de PC e smartphones acessam a internet enquanto assistem TV. Não encontramos dados sobre a amostragem da pesquisa, por isso, os dados são diferentes (talvez complementares) aos dados da pesquisa Clarity.
Detalhes que merecem destaque:
- Apenas 24% estão olhando o conteúdo da TV na internet
- 56% estão mandando mensagem para famílias e amigos
- 40% estão nas redes sociais
- 37% estão vendo conteúdos não relacionados.
No Brasil, a “tendência” (que é vista todas as noites do horário nobre da TV no Trending Topics do Twitter), não é diferente. Um estudo do IBOPE Nielsen Online revela que 43% dos usuários brasileiros da web navegam e veem seus programas favoritos ao mesmo tempo pela TV.
Uma mídia não está substituindo a outra e nem os índices da televisão têm quedas de ibope significativas para temer o fenômeno, que já chamado por especialistas como “dual screen users” – no português, usuários de duas telas ou tela dupla.
No Brasil, as telenovelas são o alvo preferido dos usuários dual screen. Em segundo lugar, as notícias e, depois, filmes e transmissões esportivas completam o ranking das programações mais comentadas nas mídias sociais – Isso sem falar do Big Brother Brasil, um caso a parte, que merece um post específico.
Um dado interessante é que 60% dos entrevistados afirmam ter este comportamento (assistir TV e compartilhar comentários nas redes sociais) todos os dias. Ao contrário do que se pensa, a tendência é termos uma TV mais Social e com funcionalidades que permitam acessar e compartilhar o que estamos assistindo diretamente para as redes sociais.
Em 2009, a aposta dos pesquisadores era uma “one screen”, que permitisse tudo isso. Leia o artigo escrito para a Pós-graduação de Mídias Digitais sobre TV Digital e tire suas próprias conclusões.
Parece muito cedo para se falar em rankings e panoramas das redes sociais em 2012, afinal, o ano nem bem começou. No entanto, dados de dezembro e janeiro dos institutos ComScore e SemioCast mostram que muitas coisas já mudaram desde o meu último post sobre as redes sociais mais acessadas pelos internautas no Brasil.
Quais são as novidades desde os últimos relatórios veiculados?
• Facebook ultrapassou Orkut em número de usuários, alcançando 36 milhões de usuários únicos em dezembro de 2011.
• Orkut alcançou um crescimento de 5% no ano passado, no entanto, manteve-se com 34 milhões de usuários únicos.
• E Twitter traz a grande novidade em janeiro de 2012, ultrapassando o Japão e se posicionando o Brasil como segundo país a mais utilizar a rede, perdendo apenas para os Estados Unidos. Fechou o mês de janeiro de 2012 com 33 milhões de contas no Brasil.
Detalhes importantes a serem questionados:
Como já dito anteriormente no blog, é preciso analisar dados da pesquisa e amostragem cuidadosamente antes de tirar conclusões precipitadas, como por exemplo: 1) A amostragem do ComScore não considera aferição em lan houses e sabemos que essas são responsáveis por boa parte do tráfego do Orkut o Brasil.
As lan houses são responsáveis por quase 50% dos acessos à internet no Brasil. No Nordeste, este dado chega a 70% dos acessos. Confira esse e outros dados no vídeo realizado pela FGV, Sebrae e Portal do Empreendedor:
2)O Facebook ultrapassa o Orkut somente na região Sudeste do país (que concentra maior quantitativo de acessos). No resto do país, o Orkut ainda é hegemônico. 3) Em dezembro de 2011, 76% dos usuários do Facebook também acessaram o Orkut, segundo a ComScore. O que significa que as plataformas estão sobrevivendo paralelamente. 4) O Twitter apontou uma tendência de crescimento importante, que pode ultrapassar o número de contas cadastradas do Orkut em pouco tempo.
Conclusões:
• Quando dizemos que o facebook é maior do que o Orkut, ainda entendemos que é uma ultrapassagem regional e não nacional, por mais que a região sudeste concentre usuários.
• Sem a aferição de lan houses jamais teremos certeza dos dados de acesso às plataformas sociais no Brasil, haja visto o quantitativo de usuários de lan houses no país.
• O Brasileiro vem se habituando a trocar informação em múltiplas plataformas, separando amigos por grupos ou interesses.
O último relatório do instituto ComScore sobre a ascensão das redes sociais na América Latina aponta que 90,8% dos brasileiros que acessam a internet acessam redes sociais. Mas o que isso significa para planners, criativos, empreendedores e clientes?
1. Isso significa que a ascensão das redes sociais no Brasil é um caminho sem volta.
2. Isso significa que o marketing em mídias sociais continuará a ser a cereja do bolo nos planejamentos digitais por um bom tempo.
3. Isso também significa dizer que cada vez mais empresas irão se conscientizar da importância de interagir com seus consumidores on-line.
4. Isso também pode afirmar que oportunidades de trabalho junto ao marketing digital continuarão sendo abertas…
As conclusões parecem precipitadas, mas não podemos deixar de afirmar que o crescimento do mercado é uma tendência. Segundo o infográfico do Mashable, o Brasil tem apenas 37,8% da população conectada e os brasileiros já são fãs incondicionais das redes sociais.
O brasileiro é plural e se adapta rapidamente a novas redes sociais on-line. A prova disso são redes como Tumblr e Linkedin no TOP10. A surpresa da imagem que segue abaixo é ver a companhia Vostu, responsável pelos jogos Megacity e Café Mania, sendo citada como rede social. No site da companhia não encontramos informações que expliquem essa inclusão no Top10 Brasil.
Como sempre, os institutos de pesquisa e canais de comunicação se confundem na hora de elencar as principais redes sociais. A falta de critério do que é ou não é uma rede de relacionamento já deu origem a outros posts meus sobre o assunto. Uma prova dessa confusão é o ranking do infográfico do Mashable que inclui Blogger e WordPress na lista.
O que o relatório da ComScore apontou sobre a briga Orkut X Facebook:
• No Brasil, o Orkut foi a rede de relacionamento mais visitada, alcançando 35,7 milhões de visitantes, Isso significa que o Orkut cresceu em visitas 20% em relação a Junho de 2010.
• Enquanto isso, o Facebook obteve um crescimento de 192%, alcançando em números absolutos 24,5 milhões de visitantes.
• Há uma intersecção de usuários no que diz respeito aos acessos. Cerca de 20 milhões de pessoas que acessaram o Orkut também acessaram o Facebook, sendo possível concluir que há mais uma divisão de atenção do que um possível processo migratório.
• Ainda assim, os usuários do Orkut no Brasil são mais participativos do que no Facebook. Um visitante médio do Orkut passou 4,3 horas no site em Junho de 2011, enquanto um visitante do Facebook passou 1,6 hora durante o mês.
O relatório ainda mostrou que no Brasil, as mulheres somaram 58,7% de todo o tempo gasto em redes sociais. Pesquisas anteriores já provaram que as mulheres são as que mais interagem e participam de processos de decisão de consumo de toda a família. A diferença entre gêneros nas redes sociais on-line pode parecer pequena, mas o consumo de produtos de higiene pessoal e cosméticos movimentou, somente em 2010, 37,4 bilhões de dólares no Brasil e marcas como Avon, Boticário e L’oreal Paris já possuem perfis nas principais redes sociais on-line para se comunicar com suas consumidoras.
Recebi esse release no informativo da eMarketer. Achei interessante repassar para vocês.
A pesquisa original é da Saatchi & Saatchi e da IPSOS OTX MediaCT, feita com usuários de Internet nos EUA. Não consegui ter acesso à metodologia, mas imagino que deva ser adequada, até pela experiência das empresas envolvidas. De qualquer forma, vou resumir os pontos principais:
a) É possível que as receitas com os “jogos sociais” nos EUA passem dos US$ 1 bilhão esse ano;
b) Dos internautas estadunidenses (desculpem…odeio usar “americanos”) entre 18 e 44 anos, foi verificado que quase a metade joga algum jogo social diariamente;
c) Divisão por gênero dos jogadores: 54% homens, 46% mulheres;
d) Entre as pessoas que possuem tablets, 66% jogam diariamente; nos que possuem smartphones, 53%;
A partir da pesquisa, os autores apontam que parece haver uma recepção mais amigável para empresas nesses ambientes. Uma dica interessante é a respeito do papel do status na comunidade, que é importante mas muitas vezes insuficiente para motivar as pessoas a interagir com as marcas.
Parece um caminho legal para pesquisa, em especial se alguém tentar replicar isso no Brasil. Como toda pesquisa, alguns avisos: 1) Não tive acesso aos dados ou metodologia – não tenho como garantir que foi feito de modo adequado; 2) Não diga que “os internautas do mundo todo” têm esse comportamento – a pesquisa é relacionada a internautas dos EUA. No Brasil o comportamento pode ser bem diferente.
Aproveitando a minha proximidade com as publicações acadêmicas na nossa área, resolvi inaugurar uma seção aqui no Blog que é sobre novidades publicadas em periódicos, conferências e livros ao redor do mundo. Normalmente a linguagem tende a ser bastante críptica; portanto, acho que posso ajudar vocês: 1) “traduzindo” o academiquês; 2) indicando a fonte; 3) comentando.
Infelizmente a maior parte desse conteúdo está protegido por direitos autorais, o que me impede de colocar o .pdf original diretamente aqui. Poderia colocar em algum serviço de compartilhamento de arquivos. Contudo, optei por outra via, legal e interessante ao mesmo tempo. Você pode acessar a maioria destes arquivos através da biblioteca de uma universidade que seja conveniada com o Consórcio CAPES de peridódicos (a maioria é). Portanto, caso você tenha interesse em ler o artigo completo, por que não uma visita à biblioteca? Os bibliotecários certamente ficarão felicíssimos em ajudar! (dei aulas no curso de Biblioteconomia, então acredite: eles ficam muito felizes em ajudar alguém, mesmo não estudante, que precise de orientação)
1) ROMERO, D.M.; GALUBA, W.; ASUR, S.; HUBERMAN, B.: Influence and passivity in Social Media. WWW2011, March 28 – April 1, 2011, Hyderabad, India.
A apresentação curta dos autores teve como campo o Twitter. Basicamente, eles confirmaram algo que já suspeitávamos – que a maioria dos usuários do Twitter atua de modo passivo, não repassando o conteúdo para frente. Assim, colocam como problema a ser transposto a passividade dos usuários do Twitter. Conforme demonstram através da análise estatística de um banco de dados de mais de 2,5 milhões de usuários, alta popularidade não implica em alta influência, e vice-versa.
Dificuldade: Alta – o artigo é um pôster (logo, curto) e contém operações estatísticas relativamente complexas. Em Inglês. Recomendo a leitura para quem for da área de metrics. Link.
2) WEINBERG, B.D.; PEHLIVAN, E.: Social spending: managing the social media mix. Business Horizons, n.54, pp.275-282, 2011.
Embora eu tenha achado a revisão de literatura dos autores relativamente fraca, o tema em discussão é, talvez, o mais importante para agências e empresas: como medir o ROI de ações em Mídias Sociais. Eles propõem um esquema que parece bastante interessante, ainda que eu tenha a sensação de já ter visto algo parecido em outro lugar. Os dois eixos para análise são a “meia-vida” e a profundidade da informação. Acho que meia-vida pode ser substituída aqui por durabilidade sem grandes prejuízos.
Entretanto, não há grandes contribuições adicionais. Os autores enfatizam que o processo midiático atual não pode ser compreendido como similar ao tradicional, principalmente devido ao “capital social”. No fundo, o mais legal é que eles oferecem uma voz discordante em relação à preponderância do ROI nas análises de Social Media, justamente devido ao seu funcionamento peculiar e difícil mensuração.
Dificuldade: Simples – o artigo não contém teorias muito complexas. Em Inglês. Link.
Fonte: WEINBERG & PEHLIVAN, 2011 (p.279)
3) HAMPTON, K.N.; LEE, C.; HER, E.J.: How new media affords network diversity: Direct and mediated access to social capital through participation in local social settings. New Media & Society, online, pp.1-19, 2011.
Será que a Internet, ao invés de aproximar pessoas diferentes, acaba servindo para juntar cada vez mais pessoas que têm interesses em comum? Em outras palavras: as redes online estariam, cada vez mais, contribuindo para reduzir a diversidade dos encontros sociais? Através de uma série de regressões estatísticas, os autores propõem que há um certo otimismo exagerado com a ideia de que as mídias sociais necessariamente aumentam a diversidade das redes pessoais – relativa exceção sendo as redes sociais online, como o Facebook, que contribuem diretamente para a diversidade.
O artigo é interessante a traz alguns insights legais, principalmente porque vi até hoje pouca gente pesquisando essa questão da diversidade das redes sociais. Dificuldade: média/alta – contém métodos estatísticos mais complicados, embora seja possível aproveitar bastante coisa da revisão de Literatura. Link.
4) HAMPTON, K.N.; SESSIONS, L.F; HER, E.J.: Core networks, social isolation, and new media. Information, Communication & Society, n.14, v.1, pp.130-155, 2010.
Nesse artigo aqui, o resumo (abstract) é tão bem feito que vale mais a pena colocar inteiro aqui:
“Evidências empíricas da General Social Survey (GSS), dos EUA, sugerem que durante os últimos 20 anos as pessoas se tornaram cada vez mais isoladas socialmente, assim como suas principais redes de interação se tornaram menores e menos diversas. Uma explicação oferecida para essa tendência é o uso de telefones celulares de da Internet. O presente estudo analisa as conclusões de uma pesquisa de 2008 que replica a metodologia da GSS, de forma a explorar os relacionamentos entre o uso de novas tecnologias e o tamanho e diversidade das redes. Os achados são contraditórios com os resultados da pesquisa GSS de 2004; exemplo, nós achamos que o isolamento social não cresceu desde 1985. Contudo, o presente estudo oferece sustentação para a conclusão que o tamanho das princpais redes de interação social das pessoas declinou, assim como o número de membros menos próximos a elas em suas redes. Telefones celulares e o uso de Internet, especialmente alguns usos específicos de social media, foram considerados como tendo uma relação positiva para o tamanho da rede e sua diversidade. (…)”
O artigo é interessante, principalmente por conter uma boa revisão de literatura. Acho que vale a pena dar uma olhada, quem puder. Link.
Como acadêmico, percebi que não apenas se ganha o título de Mestre ou Doutor após uma pós stricto sensu. Você também ganha o título de chato. Você vira um pé no saco ao questionar coisas que, até aquele momento, eram claras e evidentes. Ao criticar coisas que todo mundo concorda, você quase se torna persona non grata em algumas rodas de discussão.
Por um lado, acredito que esta é a função de uma pós-graduação decente. Incentivar o aluno a continuamente questionar, especialmente o questionamento de coisas que, até aquele momento, eram tidas como verdades absolutas. Que o diga Galileu. Ou então Sócrates.
Mas, assim como Sócrates, você está arriscado a colecionar inimizades. Tenho sorte de, pelo menos, até o presente momento esse não ter sido exatamente o caso – pelo menos não serei condenado a tomar cicuta. Menos mal.
Aproveito então esse espaço para bater numa tecla que, a princípio, todo mundo sabe que é importante, mas o cotidiano muitas vezes nos leva a proceder de modo diverso ao que aprendemos. Falo de como normalmente nossa área recebe as pesquisas publicadas.
Lembro bem quando, ainda em 2009, após a defesa da dissertação de mestrado, a assessoria de imprensa do Coppead entrou em contato comigo para que eu falasse sobre a minha pesquisa. Passei quase 40 minutos ao telefone, explicando tudo que a profissional havia pedido. Tentei traduzir para uma linguagem simples algumas das coisas mais legais que havia visto e concluído. Minha dissertação, iniciada em 2007, era sobre o Second Life (lembra?), e minha pergunta era basicamente acerca da reação dos ‘avatares’ em relação às iniciativas das empresas dentro da plataforma. Sim… Porque naquela época havia uma profusão de consultorias especializadas em colocar sua empresa no Second Life; achei estranho e curioso, contudo, que ninguém tivesse pensado em, talvez, saber se as pessoas lá dentro realmente estavam dispostas a interagir com as marcas. Ao contrário do que achava inicialmente (que haveria uma reação negativa à presença das marcas), o resultado preliminar foi pior – para as empresas: os avatares entrevistados simplesmente não ligavam para isso. Completa indiferença. Foi uma pesquisa que utilizou uma perspectiva qualitativa de coleta de dados. Pela existência de pouco material para embasar uma pesquisa quantitativa e, também, pela natureza da minha pergunta e dos objetivos, optei por realizar entrevistas dentro do Second Life (através do meu avatar, claro!).
Algum tempo depois, vejo uma publicação no Jornal O Globo comentando sobre os resultados da minha pesquisa. Foi uma menção rápida. Porém, por algum desvio de comunicação, o jornalista disse que eu havia concluído mais ou menos o seguinte: “90% das iniciativas empresariais do Second Life falhavam em menos de 1 ano de operação” (ou algo parecido, não lembro o texto exato – mas o teor era esse).
Primeiro ponto: não concluí isso. Esse dado é oriundo de uma pesquisa feita nos EUA que, por relevância acadêmica, foi incluída e analisada na minha revisão de Literatura. Segundo: eu não fiz essa pesquisa. Imagina! Poderiam até me acusar de plágio por isso. Terceiro: o objetivo da minha pesquisa não era esse. Quarto: eu não tinha como concluir isso com os dados que coletei.
Uma pessoa comum que lesse a notícia certamente não teria ideia desse caminho tortuoso. De entrevistas em ambientes virtuais de uma pesquisa destinada a conhecer percepções sobre marcas acabou virando um dado numérico acerca de sucesso de empresas. Uma transformação e tanto!
Entretanto, meus caros, é muitas vezes esse o tipo de dados a que somos expostos no cotidiano profissional. Como acadêmico, nós temos trezentas mil matérias de metodologia, destinadas a, primeiramente, ajudar a separar o joio do trigo. Ajudar a entender um pouco melhor como as pesquisas foram feitas, em que contexto, por quem, etc.
Os dados que normalmente recebemos, contudo, costumam ser lindos. “34% dos usuários da plataforma X acham Y” ou “59% das mulheres brasileiras não usam o programa Z”. Como a fonte principal de informações desse tipo acaba sendo representada por press releases ou congêneres, o leitor fica na triste situação de não ter sequer como checar como esses dados foram produzidos. Não é muito costumeiro entre nós a checagem da metodologia empregada, quanto mais o acesso aos dados utilizados.
Instituições mais renomadas costumam ter metodologias pelo menos um pouco mais claras e também apresentam mais cuidados na exposição dos resultados. Outras, contudo, não têm a mesma precaução.
Qual o problema disso?
Bem. 140 caracteres costumam ser insuficientes para se dar uma ideia do método empregado. E, ainda, muita gente no mercado não teria capacidade técnica para interpretar uma boa parte do que é publicado – tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. Quantitativamente falando, um desconhecimento de princípios básicos de Estatística, necessários para se analisar qualquer coisa em pesquisas do gênero. Qualitativamente falando, um desconhecimento de princípios básicos de Ciências Sociais, que pode levar a distorções na interpretação dos dados.
Infelizmente, a maior parte dos cursos “práticos” do mercado tende a deixar essa questão de lado – ou, na melhor das hipóteses, relegada a um segundo plano, normalmente odiada pelo jeitão técnico que normalmente permeia a área.
E as publicações também costumam ser econômicas ao explicar a metodologia empregada, talvez por medo de replicação – embora qualquer pessoa alfabetizada com o mínimo de boa vontade possa aprender isso em uma biblioteca ou na Internet. Não defendo, contudo, que as publicações de pesquisas na nossa área incluam aquela linguagem críptica, digna dos Illuminati, em seus press releases. Não! Mas acho que um pouco mais de abertura faria bem.
Pretendo deixar aqui algumas dicas para você evitar ser levado por números mágicos e interpretações “heterodoxas” dos dados:
1) A pesquisa tem um sentido político. Somos animais políticos, não? Então. Questões como quem encomendou a pesquisa e com que propósito podem ajudar muito na interpretação de seus resultados. Isso não significa que devamos descartar qualquer coisa patrocinada por uma grande empresa ou então por uma ONG Ultra-alguma coisa. Existe coisa muito valiosa em vários white papers por aí, inclusive. Isso significa que devemos sempre ter em mente qual o sentido político da pesquisa.
2) A pesquisa tem data, hora e local. A sociedade muda, não? Então. A pesquisa reflete alguma coisa de algum grupo social investigado. Mas isso também é restrito pelo momento e local de coleta dos dados. Uma pesquisa que diz “59% das mulheres brasileiras não usam o programa Z” deveria levantar as seguintes considerações pelo analista: o instituto entrevistou todas as mulheres no Brasil? Como isso é impossível, então devemos indagar acerca da representatividade estatística da amostra. Exemplificando. Imagine que você more numa cidade X e deseja saber acerca dos hábitos de utilização de Internet pelas mulheres da região. O que você pode fazer? Bem, uma solução viável seria a elaboração de um questionário, contendo perguntas que efetivamente representem o que você deseja saber. Aplicar esse questionário em um número y de mulheres na região, divididos de acordo com critérios estatisticamente aceitos. Coletar os resultados, tabular tudo isso e jogar num software estatístico, que irá cuspir um resultado. Por que esse trabalhão todo? Por que não posso simplesmente fazer entrevistas com vinte mulheres da região e descobrir o hábito de Internet delas?
A resposta é: sim, você pode! Mas o problema passa a ser o tipo de interpretação que esses seus dados darão suporte. Se você entrevista 20 mulheres da sua região (que, digamos, tem 30000 mulheres), parece duvidoso que esse grupo escolhido por você represente adequadamente o pensamento de todas, não?
Para você poder inferir determinadas coisas, a partir de um grupo pequeno (amostra) para a população estudada, há a necessidade de controle estatístico desse processo. Caso contrário, você estará fazendo uma inferência errônea, que muito possivelmente não representará o “hábito de consumo das mulheres da região” – seu objetivo inicial.
3) Saiba as limitações dos métodos. Há uma impressão muito equivocada no mercado, a impressão que pesquisas com números são mais “sérias” que pesquisas sem eles. Não poderia haver nada mais absurdo que isso. Primeiro: toda pesquisa feita com métodos consistentes, de acordo com princípios éticos e com coleta e interpretação de dados adequada é, a princípio, séria. Independentemente de seus resultados serem numéricos ou não.
O que acontece é que os métodos têm suas limitações. E é importante que você as conheça. Muito importante mesmo.
Pesquisas de cunho quantitativo tendem a ser utilizadas quando se quer ter uma visão mais geral, mais panorâmica. Se eu desejo saber a opinião de um grande grupo de pessoas sobre um tema, talvez valha mais a pena utilizar questionários e outros instrumentos correlatos para descobrir isso. De acordo com técnicas estatísticas, será possível, com certa margem de segurança, dizer que aquele resultado, obtido com uma amostra da população, representa satisfatoriamente a opinião que eu busco.
Um exemplo bem fácil disso são as pesquisas de intenção de voto. É impraticável perguntar a cada brasileiro que irá votar a sua intenção (isso só se mostra possível na votação em si). Assim, os institutos de pesquisa costumam entrevistar determinadas pessoas de determinados grupos Brasil afora para tentar ter uma ideia dessas intenções. A margem de erro indica que, mesmo com todas as precauções tomadas, não há, ainda assim, como garantir que aquele resultado realmente seja “exato”. Mas é uma boa aproximação da realidade.
Pesquisas de cunho qualitativo, por sua vez, tendem a ser utilizadas quando se quer saber em profundidade alguma coisa. Em detalhes. E detalhes, como vocês sabem, são importantes. Imagine o caso acima, da pesquisa política. O instituto só tem como saber (de mim) aquilo que me foi perguntado. Se eu vou votar no candidato X, mas eu acho que o partido dele é uma droga e tenho uma propensão a mudar meu voto caso uma CPI no Congresso mostre A, B ou C, esse tipo de dado não dá para ser captado facilmente com questionários.
Mas é algo que dá para, com sorte e técnica, ser captado por técnicas qualitativas. Quando uma empresa realiza um focus group, ela está principalmente interessada em nuances, em detalhes acerca das opiniões dos participantes. Um bom moderador sabe tirar o máximo de informações dos participantes e, assim, gerar uma quantidade boa de dados. Mas esses dados não são generalizáveis! Isso é muito importante de se saber. E não são generalizáveis justamente porque esse não era o objetivo inicial – não é para isso que os métodos qualitativos geralmente se prestam. Eles me dão uma informação muito boa sobre um recorte da realidade, mas dificilmente vão me permitir ter uma visão panorâmica segura.
Chamo a atenção para esse ponto porque não são incomuns (infelizmente) colocações estúpidas de gestores, ao analisar pesquisas, reclamando que uma pesquisa etnográfica não tem representatividade estatística. Cara pálida! Não é para ter mesmo! Não é para isso que ela se presta.
4) Saiba a pergunta de pesquisa. Saber a pergunta de pesquisa, coisa que os orientadores acadêmicos enchem tanto a paciência dos orientandos, é algo importante para o analista. Significa descobrir o que a pesquisa visa responder. Pois se você já soubesse o resultado não precisava fazer pesquisa, né? (Bem, às vezes isso ocorre por questões políticas, mas é outro papo…)
Você só tem como analisar decentemente o resultado de uma pesquisa quando sabe o que se queria descobrir. Assim, posso dizer que uma pesquisa que visa descobrir os hábitos de consumo dos cariocas em redes de compra coletiva vai me dar, caso seja bem conduzida, o seguinte resultado: hábitos de consumo dos cariocas em redes de compra coletiva. Pode até servir como inspiração para analisar os hábitos dos paulistanos, mas não era esse o objetivo. Estar atento a isso evita que você conclua algo que efetivamente não se pode concluir a partir daquele trabalho.
5) Números são números. E só isso. Com esse sensacional título, quero dizer exatamente isso: o número 23% quer dizer, apenas, 23%. E mais nada. É sempre necessária a interpretação do analista nesse sentido. Não é porque há um número ali na pesquisa que isso vá significar que é algo imutável e perfeito. 3 são apenas 3. O problema e descobrir de que coisas estamos falando. 3 bananas são diferentes de 3 iPods – mas ambos são “3″.
Assim, rogo a vocês que não se deixem intimidar por números bonitos e estatísticas elaboradas. Tentem se perguntar o que os números significam, a que se referem. Isso pode ajudar muito – acredite.
Bem, assim termino o que queria falar por hoje. Peço desculpas pelo tamanho do post – isso tem se tornado uma constante nos meus escritos, não? Mas é que normalmente escrevo as coisas de uma tacada só e, como já devem ter notado, adoro escrever. Mas torço que a leitura tenha sido boa para vocês.
Um forte abraço,
Pedro
PS – A Patrícia, mesmo sendo chantageada emocionalmente por mim, resolveu só colocar outro post novo amanhã. Dessa forma, amanhã vocês terão algo super legal (eu já li no rascunho) feito por ela.
A colaboração é um dos principais alicerces da chamada “web 2.0” – termo bastante discutido e repelido pelos profissionais de comunicação e tecnologia hoje. E partilhar o conhecimento através das redes nada mais é que exercer um papel importante como ator social dentro dela, fortalecendo o fluxo de informações no mercado e ampliando a capacidade de gerar laços importantes.
Sabendo disso, grupos de profissionais e pesquisadores experientes se reuniram em prol da disseminação do conhecimento e lançaram, colaborativamente e gratuitamente (muito importante), manuais, e-books e papers de fundamental importância para aqueles que pretendem entrar ou crescer no marketing digital.
O conhecimento nem sempre vem de fora, nem sempre vem de institutos de pesquisa ou gurus da América do Norte. Temos profissionais competentes no país que têm muito a ensinar e partilhar tanto em seus blogs, quanto em seu twitter e, mais recentemente, no seu tablet ou nas suas mãos (se assim preferir imprimir os arquivos).
Pensando nisso, reuni seis e-books brasileiros que trazem pensamentos, pesquisas e dados de mercado importantes sobre o papel das redes sociais on-line e os rumos da comunicação mediada por dispositivos na educação, política e no marketing.
Em dois deles, faço participação com os seguintes temas:
- “Ações de Marketing através de grupos de referência e influenciadores no contexto das mídias sociais” (MídiasSociais: Perspectivas, Tendências e Reflexões)
- “O poder do engajamento através da promoção nas mídias sociais” (Comunicação e Marketing Digitais)
Não cito aqui todos os profissionais envolvidos, pois não caberia no post. São muitos e muito bons. Em boa parte deles, você pagaria a inscrição de um evento ou palestra para ouvir metade do conhecimento adquirido nestes textos.