Política de Facebook

Parece que nos últimos tempos uma nova modalidade de protesto está se tornando cada vez mais comum: o protesto via Facebook. Criam-se páginas (às vezes como eventos, às vezes como causas) nas quais as pessoas, com um simples clique, podem manifestar sua posição.

Os temas são variados: em defesa dos animais, dos portadores de deficiência, dos homossexuais ou, ainda, contra alguma colocação infame ou politicamente incorreta. Os exemplos são muitos e, para você checar, basta abrir sua página do Facebook que lá estará uma penca de pedidos de apoio para alguma coisa.

Mas… pensemos um pouco acerca da natureza política desse apoio.

Pressionar um botão para dizer que “gosta” de alguma coisa é uma atitude, a princípio, inofensiva. Você estará manifestando sua posição em relação a algum tema, e isso se tornará ‘público’ nas páginas dos seus amigos. Muito legal. Mas será que é esse o potencial das manifestações políticas na rede? Será que as manifestações políticas se resumem, atualmente, a clicar em um botão?

Vejamos o caso do Código Florestal – caso você não saiba, foi aprovado na semana passada o projeto de lei que “reforma” o Código Florestal brasileiro, com várias emendas que, na prática, acabaram desvirtuando completamente a ideia original do projeto. Ainda falta a análise do Senado; porém, com a qualidade legislativa de nossos senadores, talvez fosse mais útil mandar o projeto para análise de um grupo de orangotangos para garantir algo de bom.

O que aconteceu no Facebook? Várias iniciativas se formaram, mostrando normalmente a indignação pela aprovação do código, talz… Mas, de prático, o que aconteceu? Fora a disseminação acerca da aprovação do Código, sinto dizer que mais nada de concreto aconteceu.

Já que se adora falar em Revolução da Internet e coisas do gênero, vejo que são poucos os que mandam sequer um e-mail (quem dirá coisa mais sofisticada) para um deputado ou senador cobrando a sua posição sobre o assunto. Não vi circulando com fervor na rede uma informação importante na prática, que é a lista de votação do projeto. E, antes que digam que é difícil de achar ou que o Congresso esconde a sete chaves, peço que vejam esse link. Simples. Quem votou e como votou. Sim, não e abstenção.

Meu medo é que a Internet no Brasil, esse fenômeno maravilhoso de comunicação (que, segundo os entendidos, deu “poder” aos usuários), vire mais uma extensão da nossa tradicional política de botequim, na qual todos estamos irritados e desiludidos com os nossos congressistas mas nada fazemos para mudar o quadro. Uma catarse etílica, mas ainda muito longe de uma mudança real.

Temo que a manifestação da posição política na Internet acabe virando cada vez mais um simples gesto de satisfazer-se com um clique e depois varrer o assunto para fora de casa.

Embora atualmente a ideia de “poder” dos usuários na rede esteja sendo muito importante para a questão dos direitos dos consumidores, é hora de também lembrar que a máquina pública, financiada com o nosso dinheiro, está quase sem controle algum da população – e não exatamente por falta de transparência apenas, mas por falta de paciência para cuidar de algo que é público com o mesmo carinho que normalmente cuidamos do que é nosso.

É transformar o “like” no Facebook em alguma coisa mais prática, alguma ação mais efetiva que, na prática, signifique alguma manifestação real na esfera política.

Um forte abraço,

Pedro

Pedro Ivo Rogedo

Pedro Ivo Rogedo é advogado (PUC-Rio), pesquisador do Coppead/UFRJ. Tem mestrado em Administração pelo Instituto Coppead/UFRJ, local onde faz seu doutorado na mesma área.

5 comentários sobre “Política de Facebook

  1. Estava lendo no Reader e vim aqui (saí da minha zona de conforto) para discordar do autor do texto em um ponto.

    Sim, eu concordo quando o autor fala que tem medo que a “internet vire nossa política de botequim”, coisas como #ForaSarney e #PreçoJusto em nada vão mudar o que nossos congressistas pensam ou deixam de fazer, por que simplesmente não é assim que a banda toca.

    Os políticos só vão ter medo da opinião pública no brasil, quando se moralizar a tal da “opinião pública”, que é um conjunto de Imprensa + População + movimentos sociais… é muito dificil num país como o Brasil, onde dos nossos 986 parlamentares… 359 são donos de alguma concessão pública de Rádio e Televisão… como o querido Sarney que é ‘Dono’ da afiliada da Rede Globo no Maranhão, da maior rede de rádios (tanto am como fm), do maior portal de notícias e do maior jornal. Enquanto a legislação permitir que que esse “pequeno detalhe”, que é a concessão dos veículos de comunicação, seja política e não técnica, é isso que teremos. E sim, antes de falarmos de internet livre, temos que falar de comunicação livre. As pessoas são muito influenciadas pela televisão no Brasil ainda… e não vejo isso mudando a médio longo prazo.

    E a minha parte de discordância vem do esquecimento do autor de questões pontuais do Facebook, ou eventos no Brasil que foram marcados pelo site e deram certo.. vou destacar 3:

    1 – Churrascão da Gente Diferenciada em Higienópolis – SP: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/05/14/manifestantes-fecham-rua-em-higienopolis-sp-e-realizam-churrascao-da-gente-diferenciada.jhtm

    60 mil pessoas deram like na página do evento. Eu estou em Recife e dei o like como forma de apoio, vários dos meus amigos daqui também deram like por esse fim. Foram de fato por volta de 1.000 pessoas (a imprensa disse que foram 600, mas a polícia depois divulgou dados oficiais de 1.000 a 1.200 pessoas). É uma fração? É… mas as pessoas foram protestar. As pessoas tomaram a iniciativa e obrigaram a mídia a mostrar o movimento.

    O menino que criou o evento no Facebook tem menos de 500 amigos no Face, o que mostra que quantidade não quer dizer nada quando você tem uma causa “boa”, claro, conta a favor dele o fato dele ser repórter do Terra, mas eu vejo isso como um detalhe.

    2 – Mamaço no Itaú Cultural: http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI232979-10585,00.html
    Uma mãe em lactação foi proibida pelos seguranças do Itaú Cultural na Paulista de dar de mamar ao filho. As mães e amigas dela ficaram revoltadas com a atitude do lugar e marcaram um mamaço pelo facebook e twitter. Cerca de 500 pessoas deram like no protesto… 50 mães lactentes foram la, entraram no Itaú Cultural e fizeram o protesto.

    Saiu em todos os jornais, portais e revistas femininas e o Itaú teve que baixar nota dizendo que interpelou os seguranças e vai mudar sua forma de agir.

    3 – Marcha da Liberdade – SP: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/05/marcha-da-liberdade-termina-na-praca-da-republica.html

    Quando era “Marcha da Maconha” levou pouco mais de 400 pessoas a pedirem a liberação da erva pelas ruas de SP, só que, a polícia truculenta bateu em todo mundo e a galera pôs a boca no trombone no Twitter e Facebook. 30 mil pessoas deram like na “Marcha da Liberdade” no face. 4.000 estavam na marcha da liberdade no último sábado em SP, 10x o número da marcha da maconha. Blogueiros, jornalistas, celebridades, pessoas comuns, movimentos sociais etc… Todos juntos.

    Claro, são três exemplos de SP, que é a cidade que mais acessa a internet no País (não sei de que parte o autor é), mas ignorar esses três fatos nesse texto foi lamentável a meu ver.

    São Paulo é trendsetter em casos com a internet, depois dela as outras cidades vão meio que fazendo as coisas por Osmose… ainda posso te colocar outro exemplo, fora de SP e de uma cidade bem longe, Manaus no Amazonas… onde um grupo de estudantes conseguiu através de seus blogs no Blogspot, twitter e ações no Facebook fazer com que o Show da Banda Restart fosse cancelado depois do Thomas Restart (baterista) fazer uma brincadeira de mal gosto, com o fato de em Manaus “só ter gente feia”.

    Enfim, era isso que eu queria dizer e acho qeu ficou muito longo.

    Abraços

    • Olá,
      primeiramente, muito obrigado pelos comentários! Tentarei aqui explicar um pouco melhor e, torço, conseguir responder adequadamente.
      Se você der uma olhada nos meus outros textos verá que tenho o costume de escrever coisas mais longas – porém, depois de alguns comentários e sugestões, estou tentando me policiar para ser um pouco mais conciso.
      Assim, gostaria de colocar que não esqueci desses eventos. Todos os três que você colocou são excelentes exemplos de mobilizações que deram certo (no sentido de transferir apenas a indignação virtual para o campo mais visível do público, da rua). Neste sentido, vou até mais além agora e falo do que está acontecendo na Espanha e, em menor grau, nas ruas de Paris. São mobilizações que tiveram as redes sociais como algo central – e isso sem mencionar os levantes do Oriente Médio e norte da África.
      Você tocou num ponto importantíssimo, que é a força no Brasil da televisão e, claro, o domínio de diversas concessões ao longo do país por políticos (ou famílias, ou laranjas).
      Moro no Rio de Janeiro, embora atualmente esteja cumprindo um período de pesquisa fora do Brasil.
      Peço desculpas se você achou lamentável a falta de menção a esses eventos. Contudo, quando escrevi o texto estava pensando, na verdade, em outro ponto de vista, que é algo bem parecido com um ciberativismo precário.
      É possível que tenha transparecido que sou contra esse tipo de mobilização. Se foi essa a impressão, então devo agora dizer que é o contrário. Não acho que as mesmas são inúteis ou que devam ser suprimidas.
      Contudo, estava tentando justamente chamar a atenção para um comportamento que vejo aumentando na net que é a sensação que algumas pessoas têm de que “cumpriram seu dever político” apenas clicando like no Facebook.
      Em tempo: o post que eu estava preparando para a sequência continua nessa linha, comentando sobre o crescimento de comentários quase (ou totalmente) fascistas ao longo das redes sociais, inspirado pelo texto do Marcelo Rubens Paiva (http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/a-moda-do-reaca/).
      Finalizando, reitero o tempo gasto para comentar o meu texto. Espero ter deixado mais claro o sentido e, pelo que percebi, talvez possa ter passado uma imagem errada do que queria comentar. Vou tentar consertar isso nos próximos.
      Um forte abraço,
      pedro

      • Pedro,

        A certo, sim, deu a entender que o cyberativismo é muito precário, quando na verdade existem cyberativismos e cyberativismos né?

        Eu não acho que “Fora Sarney” e “Preço Justo”, ambos criados e apoiados por figuras que estão na mídia (o primeiro pelo povo do CQC e o segundo pelo Felipe Neto) sejam coisas para serem levadas a sério. As pessoas notam que trata-se de “picaretismo” ou de “gente querendo aparecer” e não é assim que a banda toca, também.

        Eu acho qeu esse comportamento do brasileiro tem a ver muito com o momento econômico que a gente vive, são pelo menos 10 anos de prosperidade financeira… antes disso, no governo FHC, a gente tinha saído do limbo da Inflação Cavalar e tinhamos entrado em uma era de “estabilidade monetária” (apesar de ter questões de emprego e renda pifios, mas tinha estabilidade pela primeira vez). Isso faz com que as pessoas se acomodem mesmo…

        … e exemplifico isso com um texto que li outro dia, acho que era da Paris Match traduzido no UOL, não lembro direito, falando pq os jovens estavam nas ruas do Egito contra o Mubarak depois de 30 anos de ditadura, desmandos e corrupção? Por que simplesmente o Egito foi atingido pela crise econômica, milhões de pessoas ficaram desempregadas, milhares de empresas fecharam as portas, os níveis de investimento estrangeiro caíram pela metade e etc. O mesmo acontece agora na Espanha, em Madri o nível de Desemprego está, agora, em 40%. É muita gente. A economia da França ta em declínio esde o começo dos anos 2000, com a crise de 2008 entrou em recessão. Esses são os pontos para o que está acontecendo agora. Não temos essa realidade no nosso país, não por enquanto (e espero que não tenhamos), mas lembra dos Cara-Pintadas? Mesmo aquele movimento tendo sido manipulado pela mídia e por partidos políticos, aquilo aconteceu por que se chegou a um ponto de “NÃO DA MAIS” em nosso país…

        É só acenderem o pavio, que o povo vai. E com certeza, as redes sociais estarão aqui para ajudar a organizar, caso isso de fato aconteça.

        PS: O que não acontece com movimentos ligados ao Ecossistema por aqui, pq as pessoas ainda são muito “cristãs” e “conformistas”, elas acham que se a rua alagou, em vários casos, é por que deus quis… ou pq é um aviso de Deus que o mundo ta acabando com o apocalipse e nem ligam de ir atrás de lutar. Infelizmente, eis mais um problema da religião em nossa sociedade.

  2. Esqueci de comentar que o coletivo @ForadoEixo transmitiu a marcha da liberdade ao vivo em seu site, desde a concentração do Masp até o final na Praça da República e teve mais de 10.000 Viewers únicos do evento.

    Ou seja, juntando a galera que tava na internet + 4.000 pessoas na marcha = 14 mil pessoas.

    Sim, é muita gente.

  3. A marcha da maconha levou jovens às ruas. Mas quem tuitou #ForaSarney não saiu de casa. Protesto no Twitter e/ou Facebook é uma versão confortável de protestar. Na Argentina fazem panelaço, aqui fazem abraço na Lagoa…

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