Quanto valem nossos dados?
Li hoje uma interessante notícia na página da BBC, com o título “Nuestros datos personales son el nuevo petroleo” (‘nossos dados pessoais são o novo petróleo’). Embora aparentemente seja um tema já bastante batido, gostei do foco que o jornalista deu para a matéria. Ao invés de ficar remoendo nas noções clássicas de privacidade, ele entrou pelo lado do valor dos dados e da frequente ignorância dos usuários acerca de qual o real valor das informações disponibilizadas na rede.
Se não me falha a memória, foi o Luli Radfahrer que certa vez falou sobre o modelo de negócios do Google da seguinte (e brilhante) maneira (algo assim): “Eles te oferecem algo que tem um valor grande a custo percebido zero, pedem em troca coisas que individualmente não tem tanto valor e geram muito dinheiro agregando tudo isso e vendendo”. Perdoe-me o Luli se minha memória não foi capaz de guardar exatamente a expressão, mas tenho quase certeza que foi por aí.
De qualquer forma, vejamos o exemplo do GMail. Ainda nos lembramos bem dos tempos pré-Gmail, em que contas de correio eletrônico eram muitas vezes cobradas e tinham uma capacidade de armazenamento limitada. Quando o GMail começou foi um choque – de uma hora para outra não se falava em outra coisa, pois os iniciais 1GB (se não me engano) eram muito mais que os concorrentes ofereciam – e de graça.
Bem, aí que está a coisa: não necessariamente “de graça” significa sem troca de valor.
Devemos ver o GMail por dois ângulos: o da qualidade da informação e o do aprisionamento do usuário.
Em relação à qualidade da informação, lembremo-nos que os muitos que usam o GMail como seu principal correio eletrônico deixam o Google visualizar coisas muito importantes de sua vida. Quem nunca viu aqueles anúncios que miraculosamente parecem se adequar (ainda que de forma mais ou menos coerente) ao conteúdo de um e-mail enviado? A quantidade de informações trocadas através do GMail, bem como a qualidade das mesmas, torna esse serviço tão interessante para o Google. Em troca de um serviço gratuito, você “deixa” o Google analisar o que você troca de informação com outros.
Em relação ao aprisionamento do usuário, a lógica é mais simples. Trocar e-mail com frequência traz grandes inconvenientes – assim como trocar de imóvel e de celular. Você tem que enviar seu novo endereço para contatos profissionais, migrar tudo, etc. Além disso, a memória dos e-mails antigos costuma, muitas vezes, se perder nessa transição. Comparando, basta imaginar o impacto que a portabilidade teve para as operadoras de telefonia: o que era um processo relativamente complicado de trocar o número passou a ser algo bem mais simples.
Assim, por trás de um inofensivo serviço temos, na realidade, milhões de pessoas alimentando, minuto a minuto, uma gigantesca base de dados inteligente, que traça perfis de consumo, gostos, etc. Ok, isso pode ser automatizado, como disse o Alexandre Hohagen na época que era presidente do Google Brasil e o perguntei inapropriadamente acerca disso em uma palestra no Coppead. Mas, automatizado ou não, os dados continuam sendo utilizados.
A recente migração para a nuvem interessa muito às empresas – quanto mais dados deixarem de ser enclausurados em redes internas mehor, mais informação elas terão sobre os clientes.
Dados valem muito dinheiro. Tivemos recentemente o bafafá em relação ao IPO do Facebook, com pessoas assustadas com o valor estimado da empresa. Porém, se pensarmos sob esse ponto, veja que mina de ouro: colocamos nossas informações pessoais de maneira voluntária para a empresa analisar tudo isso. Colocamos nossas informações sobre contatos, amizades, preferências políticas, fotos de lugares que visitamos, etc… Tudo isso vale muito dinheiro. É o paraíso dos publicitários e estatísticos modernos.
Basta lembrar que a maioria das técnicas quantitativas de pesquisa de mercado foram desenvolvidas em uma época na qual se perguntar para cada cliente sua preferência seria muito complexo e caro. Hoje em dia, com a quantidade (e qualidade) de informações disponíveis, basta uma rede relativamente grande, um potente sistema de análise e bons profissionais para se traçar um perfil do usuário que, às vezes, nem sua mãe sabe.
Evitei entrar em controvérsias sobre privacidade – deixo isso para outro dia. Mas resolvi aproveitar o gancho para comentar um pouco sobre a notícia.
Abraços,
Pedro

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Patrícia,
Adorei! Sou jornalista e estou me especializando em Redação para Web ou Webwritter. Fiz um curso recente na Unifacs e a abordagem foi exatamente essa.
Muito bom seu texto.