24/03/12

Consumo colaborativo – Por que não deslancha no Brasil?

Resumo: Faço nesse post um questionamento acerca dos porquês de o movimento de consumo colaborativo no Brasil não seguir em ritmo mais acelerado. Ao final, peço a participação do leitor para me ajudar a elucidar essa questão.

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Este mês aproveitei algumas horas livres para reler o livro “What’s mine is yours”, de Bo Rogers e Rachel Botsman. Já há uma versão traduzida para o Português, lançada aqui em 2011.

É um livro muito interessante, que contém exemplos de iniciativas comerciais de sucesso na área de colaboração. Claro que já somos expostos há tempos a essas iniciativas, sendo o exemplo mais evidente a nossa tão querida Wikipedia (para nossa alegria!). O que o livro fala, entretanto, é sobre outras iniciativas interessantes que, muitas vezes, são desconhecidas do público brasileiro.

Aproveitei a minha temporada de pesquisa na Europa para ver algumas iniciativas físicas de colaboração, principalmente em várias conversas com alguns amigos meus. Ainda teve a oportunidade fantástica de usar o serviço de bicicletas compartilhadas de Paris (Velib), por sorte não provocando um acidente. Vi também o serviço de bicicletas de Sevilha (Sevici), que funciona de modo parecido.

O grupo que conheci através do Antonin Léonard (que, atualmente, é o cara de Consumo Colaborativo na França) incluía um jovem empreendedor, cujo nome é Alexandre Grandremy. Alexandre é um dos fundadores da Deways, uma start-up destinada a promover o compartilhamento de automóveis entre particulares.

 

Criada por estudantes da ESSEC, prestigiada escola de negócios francesa, a Deways parte de uma ideia bastante simples: aproveitar ao máximo o tempo ocioso dos carros, fomentando o aluguel de carros entre particulares.

Basta passar em frente ao estacionamento de uma universidade para constatar que os carros ficam ali durante algumas horas, parados. Porém, e se pudéssemos aproveitar esse tempo ocioso do carro parado alugando-o a alguém? As locadoras de carro fazem isso há décadas e funciona bem. A mesma tática funcionaria entre particulares?

Embora possa ser contra-intuitivo para alguns, a iniciativa da Deways tem funcionado bem, sim. Carros são alugados entre particulares, gerando um pequeno incremento de renda para o dono e, ao mesmo tempo, resolvendo o problema de outra pessoa.

Do ponto de vista econômico, a função da Deways é servir como um intermediário entre o proprietário e o interessado, fornecendo não só as bases contratuais para o empréstimo como também outra coisa mais importante, que é o senso de comunidade.

Nesse sentido, temos o exemplo do CouchSurfing, que serve como uma rede global de turismo ‘informal’. Se você tem um espaço livre na sua casa e gostaria de recepcionar um turista como você, simplesmente faça o cadastro no site informando que você tem essa oferta disponível. Por outro lado, se você tem interesse em viajar e ficar na casa de um dos membros da comunidade, basta entrar no serviço e ver as pessoas que disponibilizam espaço e fazer o contato com elas. Recebi, há um mês, dois lituanos extremamente simpáticos aqui em casa – e já tenho planos de incluir uma outrora impensável Lituânia na minha próxima viagem!

Mas, embora tenhamos no Brasil algumas iniciativas nesse sentido, vejo que temos muito mais potencial que o atualmente explorado. E, penso, por que isso ocorre?

Acredito que um dos entraves é cultural. Como participantes tardios da ‘festa’ do consumo, em especial a partir da década de 1990, nós, brasileiros, perdemos um pouco aquela característica amigável de compartilhamento que tínhamos há algumas décadas, em uma época na qual era muito mais complexo comprar as coisas. Lembre do sufoco que era ter uma linha de telefone, e que não era incomum permitir o uso ocasional do mesmo a um vizinho em necessidade. Ou, então, das tradicionais caronas. Claro que ainda existem caronas e caroneiros, mas muita coisa mudou nos últimos anos.

Ficamos cada vez mais reclusos em nossos condomínios, tendo um precário conhecimento dos nossos vizinhos. My home is my castle – estamos levando essa máxima inglesa ao pé da letra. Fechando-nos, contudo, o compartilhamento fica mais complexo, pois fica bem mais complicado saber das necessidades e ofertas dos outros.

Em um exemplo bastante elucidativo dado pela Rachel Botsman: quantas vezes por ano você precisa de uma furadeira? No entando, basta ver que muitas residências possuem uma, que fica parada 99,8% do tempo pegando poeira em um armário. Não seria mais fácil que o prédio tivesse uma e, sempre que alguém precisasse, a tomasse emprestada?

Do ponto de vista econômico, faz todo sentido. Ter um produto que supostamente vale pela sua utilidade parado no armário é uma perda de dinheiro. E, entretanto, por que não compartilhamos mais?

Ao contrário dos outros posts meus, dessa vez não tenho muita ideia da resposta, e gostaria de pedir a vocês, no melhor espírito colaborativo, que me ajudassem a elucidar essa questão.

Abraços,

Pedro

 

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06/08/11

Consumo Colaborativo

Antes que se inicie a profusão dos “7 métodos para sua empresa usar o Consumo Colaborativo” ou então “781 passos para o sucesso”, resolvi falar um pouco sobre esse tema que já está começando a bombar no Brasil.

Por sinal, mesmo na era da Internet, continuamos a ter um certo atraso em relação às coisas que são debatidas fora do país. Como aconteceu com o Henry Jenkins, cujas ideias só começaram mesmo a se difundir pelo mercado brasileiro quase um ano após a publicação do Convergence Culture, a proposta do Consumo Colaborativo ainda engatinha no nosso mercado, embora já esteja a pleno vapor fora do país.

Embora a ideia em si não seja nova, a forma com que ela foi apresentada por Rachel Botsman e Roo Rogers no livro “What’s mine is yours: how collaborative consumption is changing the way we live” é digna de louvor. Uma versão em Português pode ser encontrada na Saraiva. E garanto que vale a pena dar uma olhada.

Em síntese, os autores apresentam vários exemplos de coisas que já consumimos de maneira compartilhada. Por exemplo: quando você aluga um carro numa locadora, você está usando um veículo que não é seu, pelo tempo necessário para cumprir sua utilidade. Da mesma forma, quando você aluga um traje de festa, o mesmo processo ocorre.

Mas o consumo colaborativo não é a mesma coisa que o compartilhamento como o conhecemos. Trata-se de uma mudança na própria forma de se pensar o “ter”.

Paremos para pensar. Digamos que você tenha um martelo em sua casa. A não ser que você seja carpinteiro ou algo do gênero, muito provavelmente o martelo fica sem uso durante a esmagadora maioria do tempo. O mesmo acontece, em muitos casos, com um carro. Todo o tempo que ele está no estacionamento é, infelizmente, um tempo sem uso. O carro não só não tem a utilidade desejada como também ocupa espaço.

E se pudéssemos compartilhar esses bens com outras pessoas? Imagine um prédio em que, ao invés de cada morador ter um conjunto completo de carpintaria, o condomínio o tivesse e alugasse por um valor módico para quem necessitasse. Não seria interessante? Então. A proposta gira por aí. Na verdade, trata-se de maximizar a utilização dos bens (troca de brinquedos, quartos livres em casa, etc.) que, de outra maneira, ficariam ociosos.

E o problema vira, então, econômico. Claro que é muito bonita essa ideia e, se o mundo fosse perfeito, talvez o velho sonho político dos bens comunais fosse a solução perfeita. Mas não é assim que ocorre.

Há sérios problemas no casamento entre oferta e demanda nessa situação, muitas vezes gerados por ineficiências no processo comunicativo. Como eu saberei que o meu vizinho tem um martelo e que ele estaria disposto a me emprestar?

Aí entram as redes online. Da mesma forma que o efeito da cauda longa, a Internet abre a possibilidade de equacionar esse problema de demanda difusa, provendo informações mais exatas acerca das necessidades e disponibilidades em uma determinada área. E, realizando o casamento entre oferta e demanda, podemos ter uma maior eficiência na utilização desses mesmos recursos. Com um bônus ainda: há a possibilidade, dependendo de como o sistema seja feito, de que não haja troca monetária. Basta ver o exemplo do couchsurfing. Eu hospedo alguém em minha casa com a expectativa de que, caso viaje, alguém da rede fará o mesmo por mim.

Ainda falta equacionar isso com a cultura individualista ao extremo que se tem em muitos lugares; a ideia de compartilhar um carro, para algumas pessoas, parece quase pior que xingar a mãe. Contudo, acho que esse conceito pode ser bastante interessante e, a despeito de várias coisas, pode ser aplicado em sucesso em muitas áreas do nosso cotidiano.

Espero ter ajudado vocês ao despertar um pouco mais de interesse nessa ideia. E, de igual modo, espero tê-lo feito antes que se inicie a profusão de artigos contendo “os 7 passos do sucesso” na área. Ao contrário do que parece – como diria o Luli Radfahrer – não tem essa coisa de “7 hábitos”, “quem mexeu no meu queijo”, “monge e o executivo, e afins. O que tem é muito estudo, dedicação e, sempre, espírito crítico. É ler algo e tentar entender como aquilo funciona na sociedade, sem uma preocupação insana inicial de como se ganhar dinheiro com isso. Talvez, inclusive, se você estudar essas ideias com os olhos de um pesquisador/entusiasta e não de um gestor financeiro/guru de auto-ajuda, é capaz que elas tenham chance de dar certo.

Por fim, nem precisa dizer que é um livro que recomendo. Espero que a leitura do mesmo gere muitos insights e possibilitem a visão do consumo de uma forma diferente de como ele é hoje.

Um forte abraço,

Pedro

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