07/06/11

O painel mais carioca do Social Media Brasil

Participante do evento desde a primeira edição, tive o orgulho de integrar o grupo de curadores do Social Media Brasil deste ano.

Um grande time de profissionais discutiu por e-mail aproximadamente uns 2 meses sobre temas, direcionamento dos painéis e nomes que poderiam integrar o casting de palestrantes.

Uma das minhas sugestões, por exemplo, foi levar a Flourish Klink, que encerrou o evento no palco principal com uma palestra empolgante e descontraída sobre a cultura de fãs e narrativa transmidiática (também conhecida como transmedia storytelling).

Todo esse debate me deixou com um gostinho de quero mais vindo da palestra do ano passado, a qual falei sobre “Análise SWOT das mídias sociais”. Não aguentei e “me ofereci” para organização como debatedora. Tive a sorte de cair num painel com Victor Guerra (Ideia/SA) e Eduardo Barbato (NBS) – na verdade, o Barbato foi “culpa” minha :) Tinha visto o case do Tweet Bomb e achei super pertinente diante da proposta do painel. Além do mais, a NBS é uma das agências que mais ganha prêmios de digital no país, merecia ter seu representante lá.

Em suma, mais uma leva de e-mails com ambos para decidirmos o que falar, que cases levar, como aproveitar melhor o nosso curtíssimo tempo.
Eu entrei com o pé na porta e quis falar sobre Orkut. A maior rede social do país, detentora grande polêmica das mídias digitais esse ano (morreu ou não morreu?) merecia um espaço seu, uma atenção especial.

Depois, resolvi voltar pro tema (temerosa que o Formagio ou o público me matasse). Fiz uma rápida análise de fan page da Diesel e das incoerências de planejamento que vemos por aí quando se trata de Facebook.

Fechei com uma ação simpática do Twitter, que poderia ter sido realizada por qualquer marca, com qualquer verba, mas era uma ação da própria rede, em homenagem ao Dia das Mães, perdurando o efeito da hashtag e do trending topics.

Bom, gente, é isso! Os slides estão aí. Aos que foram, agradeço a oportunidade, a atenção, a paciência e os feedbacks. Aos que não foram também. Beijos e até o próximo evento.

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03/06/11

5 ações que ligam suas memórias afetivas e sociais

“A memória é a capacidade de adquirir (aquisição), armazenar  (consolidação) e recuperar (evocar) informações disponíveis, seja internamente, no cérebro  (memória biológica), seja externamente, em dispositivos artificiais  (memória artificial)”.

Até os anos 90, as pessoas usavam câmeras analógicas e se deslocavam até lojas físicas para revelar suas fotos. E hoje? Smartphones como o Nokia N8 já possuem dispositivos de compartilhamento conectados com suas redes sociais, que publicam suas fotos intantaneamente para as suas centenas de amigos no Facebook, Orkut e Twitter com apenas 2 cliques.

Mas aonde vão parar as nossas memórias? As redes sociais as armazenam para todo sempre? È claro que não. Nós mesmos as subtituímos por outras memórias em sequencia, fazendo com que álbuns, vídeos, mensagens carinhosas e updates se percam num mar de bits.

O que é publicado, é rapidamente esquecido, deixado de lado por uma memória mais recente, um álbum mais curtido ou um vídeo com mais comentários. Algumas marcas e empresas já se deram conta disso e lançaram ações / aplicativos que reunem a sua memória em gráficos, livros e vidas, como forma de tomar parte da sua memória afetiva (Reparem que todos os vídeos trabalham a trilha sonora de forma emocional a medida que o vídeo avança).

Social Memories

O aplicativo Social Memories transforma suas interações no facebook em dados, gráficos e estatísticas, fazendo com que você conheça mais sobre as suas relações e seus amigos. O livro pode ser uma recordação “eterna” por 20 euros + frete.

Intel – Museum of me

O aplicativo da Intel transforma suas interações no facebook em um lindo vídeo da sua vida, como se estivesse sendo exposta em um museu.

Bouygues Télécom – When Facebook becomes a book

Para atrair consumidores ao lançamento de sua fan page, empresa de telecom francesa criou um livro customizado e distribuiu ao seus clientes. A ação, similar ao Social Memories, foi limitada a 1000 livros, que se esgotaram apenas numa hora.

My infographic

O aplicativo do Facebook gera um gráfico com seus dados, que pode ser compartilhado com seus amigos ou entrar para sua galeria de fotos.

Tweet Notebook

Transforma seus updates em rodapé de um caderno personalizado. Pode ser comprado por 12 euros + frete.

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01/06/11

7 perguntas para Raquel Recuero

Começar um texto falando da Raquel sem fazer com que ele transborde de elogios é difícil, mas eu prometo que vou tentar.

Conheci o trabalho da Raquel em 2006, quando ainda pesquisava sobre a monografia. Pouquíssimos pesquisadores no Brasil tinham artigos consistentes sobre o Orkut na época e eu precisava de boas referências para que meu orientador não me fizesse mudar de tema.

Pesquisando em fóruns como e-Compós e Google Acadêmico, encontrei não só artigos os acadêmicos, como também, os blogs da Raquel e do Alex Primo, daí em diante, me apaixonei pelo tema e o resto da história vocês já sabem.

Raquel Recuero é Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS, professora, blogueira, pesquisadora e colaboradora do Center for Society and Cyber Studies e do Digital Media and Learning Research Hub (ela posta lá com a Danah Boyd e com o Howard Rheingold – morra de inveja!). Também é autora dos livros Redes Sociais na Internet e Métodos de pesquisa para internet. E, como se não bastasse, tem um currículo lattes que te faz acreditar na possibilidade real de que os clones existam nesta terra.

Se existe uma verdadeira especialista em redes sociais no Brasil, essa é a Raquel. E eu tive a grata oportunidade de escolher sete perguntas sobre redes sociais e interações no ciberespaço, as quais você pode ler abaixo:

- Em que ano foi o seu primeiro artigo sobre redes sociais on-line e qual era a sua relação com elas na época?
Meu primeiro trabalho foi em 2004, mas meu interesse começou com as primeiras matérias a respeito do Orkut, no final de 2003. Eu me interessava por redes sociais que eram construídas entre blogs, nos relacionamentos construídos nos comentários. Foi daí que começou a minha percepção da rede de interação, que era construída pelas conversações nessas ferramentas. Eu era uma usuária disso tudo também, o que constribuiu muito para a minha percepção de valor das ferramentas. Daí comecei a estudar também ferramentas que eu não usava ativamente, como o Fotolog e outras.

– Qual foi, na sua opinião, a principal mudança do Fotolog pra cá?
Olha, acho que aconteceu uma popularização do conceito, e uma maior percepção da relevância dessas redes. Em termos de sistemas, acho que sites ficaram mais abrangentes e passaram a incorporar elementos que já existiam na apropriação dessas ferramentas iniciais, como as narrativas do eu nos perfis, os espaços de interação e etc.

- Acredita que o Orkut teve um papel cultural no aprendizado do brasileiro em se socializar on-line?
Oh sim. Acho que o Orkut foi emblemático não apenas para o Brasil em termos de inclusão digital, mas igualmente em termos de uso da Internet para o social. A importância do Orkut é muito maior do que as pessoas realmente percebem.

- Qual é a sua opinião sobre o Facebook pagar usuários para assistirem seus anúncios?
Acho uma iniciativa interessante. A questão é como vai se dar a apropriação dela. Talvez muitos passem os anúncios, mas não necessariamente dêem atenção a eles.

- Quais são seus livros de cabeceira sobre cibercultura?
Posso citar um livro que não tem nada a ver com cibercultura? Minha leitura mais inspiradora na questão do estudo das redes sociais foi o livro “Pattern Recognition” do William Gibson. Na época, me ajudou a ver muitas coisas. Inclusive, a frase “human beings are about pattern recognition” virou a epígrafe da minha tese.  Cibercultura, especificamente, no Brasil, é o livro do André Lemos, que praticamente inaugurou a área e que é leitura obrigatória.

- A entrada (por vezes, invasão) das marcas como personas nas redes sociais on-line te incomoda?
Não. Eu sou bastante restrita com relação a atenção, meu valor mais precioso. Bloqueio e fim.

Que conselhos daria a um jovem profissional de marketing digital?
Olha, acho que se vc quer trabalhar com o digital, precisa estar nele, entender seus usos, valores e apropriações.  A coisa mais importante é estar lá. :D

Raquel, já agradeci imensamente não só a sua entrevista, mas todo conteúdo produzido durante esses anos. Não custa mais uma vez: obrigada!

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31/05/11

Política de Facebook

Parece que nos últimos tempos uma nova modalidade de protesto está se tornando cada vez mais comum: o protesto via Facebook. Criam-se páginas (às vezes como eventos, às vezes como causas) nas quais as pessoas, com um simples clique, podem manifestar sua posição.

Os temas são variados: em defesa dos animais, dos portadores de deficiência, dos homossexuais ou, ainda, contra alguma colocação infame ou politicamente incorreta. Os exemplos são muitos e, para você checar, basta abrir sua página do Facebook que lá estará uma penca de pedidos de apoio para alguma coisa.

Mas… pensemos um pouco acerca da natureza política desse apoio.

Pressionar um botão para dizer que “gosta” de alguma coisa é uma atitude, a princípio, inofensiva. Você estará manifestando sua posição em relação a algum tema, e isso se tornará ‘público’ nas páginas dos seus amigos. Muito legal. Mas será que é esse o potencial das manifestações políticas na rede? Será que as manifestações políticas se resumem, atualmente, a clicar em um botão?

Vejamos o caso do Código Florestal – caso você não saiba, foi aprovado na semana passada o projeto de lei que “reforma” o Código Florestal brasileiro, com várias emendas que, na prática, acabaram desvirtuando completamente a ideia original do projeto. Ainda falta a análise do Senado; porém, com a qualidade legislativa de nossos senadores, talvez fosse mais útil mandar o projeto para análise de um grupo de orangotangos para garantir algo de bom.

O que aconteceu no Facebook? Várias iniciativas se formaram, mostrando normalmente a indignação pela aprovação do código, talz… Mas, de prático, o que aconteceu? Fora a disseminação acerca da aprovação do Código, sinto dizer que mais nada de concreto aconteceu.

Já que se adora falar em Revolução da Internet e coisas do gênero, vejo que são poucos os que mandam sequer um e-mail (quem dirá coisa mais sofisticada) para um deputado ou senador cobrando a sua posição sobre o assunto. Não vi circulando com fervor na rede uma informação importante na prática, que é a lista de votação do projeto. E, antes que digam que é difícil de achar ou que o Congresso esconde a sete chaves, peço que vejam esse link. Simples. Quem votou e como votou. Sim, não e abstenção.

Meu medo é que a Internet no Brasil, esse fenômeno maravilhoso de comunicação (que, segundo os entendidos, deu “poder” aos usuários), vire mais uma extensão da nossa tradicional política de botequim, na qual todos estamos irritados e desiludidos com os nossos congressistas mas nada fazemos para mudar o quadro. Uma catarse etílica, mas ainda muito longe de uma mudança real.

Temo que a manifestação da posição política na Internet acabe virando cada vez mais um simples gesto de satisfazer-se com um clique e depois varrer o assunto para fora de casa.

Embora atualmente a ideia de “poder” dos usuários na rede esteja sendo muito importante para a questão dos direitos dos consumidores, é hora de também lembrar que a máquina pública, financiada com o nosso dinheiro, está quase sem controle algum da população – e não exatamente por falta de transparência apenas, mas por falta de paciência para cuidar de algo que é público com o mesmo carinho que normalmente cuidamos do que é nosso.

É transformar o “like” no Facebook em alguma coisa mais prática, alguma ação mais efetiva que, na prática, signifique alguma manifestação real na esfera política.

Um forte abraço,

Pedro

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23/05/11

Amigos nas redes sociais – revisitando Granovetter

“Quantos amigos você tem no Facebook?”

Essa inocente pergunta, que só faz sentido hoje (pois, se fosse feita há mais de sete anos significaria somente quantos amigos seus estão no seu livro da turma), esconde uma outra pergunta, mais interessante, que é relacionada ao significado de amizade.

A primeira interpretação seria relacionada a quantos amigos meus estão na minha página do Facebook. A segunda, quantos “amigos” tenho no Facebook. São dois significados diferentes, para situações diferentes.

Claro que a complexidade dessa resposta não é culpa somente do Zuckerberg (embora ele seja um dos responsáveis, sim). Diria que se trata de um processo, que já vem acontecendo desde a década de 1990, e que passa pelas primeiras iniciativas sociais na Internet de peso. É, no fundo, uma edição mais moderninha do mesmo problema que alguém encontrava quando dizia que tinha 30 amigos nas salas de bate-papo UOL o no IRC.

No fundo, a relação de amizade é produto de uma série de fatores pessoais, políticos, econômicos, sociais, religiosos, etc., forjada ao longo do tempo por um grupo de pessoas. Essas pessoas se sentem bem com outras, em uma relação recíproca, e aumentam o grau de intimidade e de troca de informações entre si, estabelecendo uma relação de confiança (claro que aqui falo principalmente de uma amizade “desinteressada”).

Um dos caras mais importantes na pesquisa em redes sociais, Mark Granovetter, certa vez escreveu que a força das relações entre os atores sociais é um composto de várias coisas, difíceis de se quantificar, incluindo o tempo gasto nessa manutenção, o grau de intimidade, a proximidade de interesses, etc.

Nesse sentido, posso ter até 890 amigos no Facebook, mas é mais provável que as minhas relações sociais se concentrem num grupo bem menor – já que é humanamente impossível dedicar tempo suficiente para construir relações sólidas e duradouras com 890 pessoas (por favor, contem isso para os políticos, ok?).

Por isso gosto da ideia de diferenciação entre ligações fortes e fracas. Sei que tem muita gente que tem objeções substanciais a essa divisão (e essas objeções fazem sentido, inclusive) – então, não considere isso como verdade absoluta, ok? : )

A ideia, basicamente, é que esses diferentes graus de “intensidade” na criação e manutenção das relações sociais geram, obviamente, diferentes resultados. No clássico artigo The Strength of Weak Ties, Granovetter fala sobre dois tipos de ligações entre atores na rede social: fortes e fracas. Qualitativamente falando, as ligações fortes seriam aquelas nas quais se investiu mais tempo e “esforço”, enquanto as ligações mais fracas seriam, em oposição, aquelas nas quais há menor intensidade nesse processo.

Coloquemos assim: você provavelmente tem uma ligação forte com sua/seu namorada/o (espero!). Significa que vocês passam tempo juntos, fazem programas em comum, compartilham de determinados gostos, têm um círculo de amizades que se conecta, de algum modo, etc.. Assim como o seu melhor amigo, aquele que sai contigo para um bar, praia, viaja com você, etc. De outro lado, você também tem uma série de outros contatos sociais, os quais, por diferentes razões, você tem um relacionamento não tão próximo assim: talvez o seu vizinho, que você conhece pelo nome e cumprimenta educadamente toda vez que encontra com ele… mas não seria o cara que você convidaria para uma viagem de Carnaval com seus amigos. Ou então o seu colega de sala, que pode ser alguém legal e interessante mas, naquele momento, ainda há pouco tempo nessa relação para que se configure algo mais forte – embora isso possa acontecer.

O nosso conceito social de “amigo” é muito mais próximo do que seria uma “ligação forte”. Daí a estranheza quando falamos que temos 890 amigos no Facebook.

Sem querer entrar em considerações mais filosóficas acerca da amizade, acredito que esse problema, pelo menos a princípio, é muito mais de uma “tradução” esquisita disso do que de qualquer outra coisa. O Inglês tem uma palavra ótima para definir essa situação: acquaintance – poderia ser traduzida como “contato”, “conhecido”. Algo mais próximo da nomenclatura usada pelo LinkedIn, rede profissional – contatos, conexões.

Recomendo a todos uma leitura do artigo do Granovetter, que pode ser baixado aqui. Acho que pode nos ajudar bastante, dando ideias bem legais e, quem sabe, vários insights práticos no nosso cotidiano.

Um forte abraço,

Pedro

 

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21/05/11

É a Economia, estúpido!

Embora muita gente boa tirasse um sarro da cara do ex-presidente Lula quando ele mandava a expressão “Nunca antes na História desse país…”, parece que o mesmo tipo de retórica é muito mais comum (e aceita) na nossa área de Social Media.

Orientando e revendo trabalhos de alunos, não era incomum ver as seguintes expressões pomposas iniciando os trabalhos: “A Internet mudou radicalmente a comunicação na atualidade”, “A Revolução das Mídias não tem precedentes na História” ou, pior, “a Web veio para revolucionar a comunicação na contemporaneidade” (essa última é sensacional).

O problema, contudo, em enxergarmos os atuais acontecimentos da tecnologia como constantes revoluções na vida das pessoas é que esse caminho, invariavelmente, leva a uma série de concepções perigosas para qualquer analista. E, já que estamos falando de História, vamos aprofundar mais um pouco nesse tema.

A prensa

Um livro que recomendo sem a menor dúvida para todos que me pedem alguma ajuda é a obra-prima de Asa Briggs e Peter Burke: Uma História Social da Mídia. Em meio a leituras muitas vezes chatas que temos que fazer, esse livro é uma preciosidade, tanto do ponto de vista de conteúdo quanto de estilo. É uma leitura agradável, interessante e, ao mesmo tempo, profunda e instrutiva.

Algumas das coisas que Briggs e Burke falam nos interessam aqui. Primeiro: eles recontextualizam a invenção e difusão da prensa, desde Gutenberg até meados do século XIX. Isso é importante porque nos acostumamos a ver a Prensa de Gutenberg mais como um fato histórico, como valor exemplificativo das grandes revoluções da comunicação, e esquecemos de como o contexto social foi fundamental para as diferentes formas de adoção ao redor do planeta. Segundo: eles tiram a (falsa) ideia comum que esse processo foi gradual e linear, sem grandes complexidades. Ao contrário: a prensa foi vista como uma das invenções mais perigosas de sua época por muitos governantes.

Claro que a difusão da prensa revolucionou o conhecimento – isso realmente é algo indiscutível. Mas quando começamos a olhar para esse cenário, vemos que não só o “conhecimento” se modificou, como também foi criado todo um mercado em torno dele.

Se, na Idade Média, a ideia de “direito autoral” era algo praticamente inconcebível, algo diverso começa a ocorrer a partir do século XVI. Governantes passaram a conceder privilégios de publicação exclusiva para algumas pessoas e, com o tempo, essa doutrina foi evoluindo para algo mais próximo do que temos hoje como direito do autor (não só de ser reconhecido enquanto tal, mas de ganhar dinheiro pela exploração disso).

Do ponto de vista econômico, entretanto, o copyright foi uma engenhosa criação para transformar algo intangível (a informação) em algo exclusivo, cuja exploração era equivalente a um monopólio artificialmente criado – pois mesmo no século XVIII nada te impedia, fisicamente, de imprimir uma cópia pirata de um livro, exceto a Lei.

Toda uma estrutura de mercado é montada aos poucos: impressores, editores, revisores, tradutores, autores, livrarias, governos, etc. Todo esse ecossistema vai se consolidando com o passar dos séculos, com a finalidade de se proteger um modelo específico de proteção da propriedade intelectual – discussão essa que continua até hoje.

O telefone

O telefone também foi outra invenção que mudou bastante as estruturas de comunicação de sua época. É interessante olhar, hoje, para os discursos frequentemente associados a esta nova criação. Padres e pastores ficavam preocupados com o potencial desvirtuamento moral que poderia acontecer, algumas pessoas achavam que era uma obra do diabo e, inclusive, há relatórios das próprias companhias telefônicas preocupadas com a crescente utilização de seus sistemas para “futilidades”. Afinal, o sistema era algo sério, para ser usado no sentido de melhorar a eficiência da comunicação entre empresas – não deveria ser utilizado para troca de fofocas.

Assim como nas ferrovias, a instalação e manutenção (até hoje) de uma rede telefônica convencional é algo que custa muito caro. Muito mesmo. Por essas e outras razões, as comunicações telefônicas são tradicionalmente concedidas pelos governos, que garantem às empresas que realizaram o investimento pesado certos direitos para auferir lucro dessa exploração.

Algumas companhias levavam isso bem a sério. A AT&T chegou a proibir a utilização de acessórios nos aparelhos telefônicos e, inclusive, a processar um cara que criou uma capa para as listas telefônicas, sob a alegação que “as capas iriam reduzir a visibilidade da publicidade, reduzindo a lucratividade da companhia e prejudicando o sistema como um todo”, como contam Hafner e Lyon.

A Internet

A ideia que hoje temos de como a Internet surgiu é um pouco mais romântica que o que efetivamente aconteceu. Embora a sua razão de ser esteja relacionada com a Guerra Fria (a ARPA era uma agência de pesquisas ligada ao Pentágono), não se criou a rede para suportar um evento nuclear, embora essa ideia tenha colaborado no desenho da rede (vide Paul Baran).

A coisa ali era muito mais interessante, até. Como fazer computadores conversarem entre si? Como fazer com que essas caras máquinas pudessem ter sua utilização otimizada? E por aí vai.

O fato é que a Internet (o que veio a ser a ARPANet) acabou saindo do domínio de alguns acadêmicos e burocratas e virou o que é hoje. Claro que significa uma grande mudança de perspectiva na comunicação, principalmente com o alcance e o aumento da capacidade de participação das pessoas. Mas não é por aí que eu quero falar.

Vale a pena também colocarmos um pouco de lado visões românticas sobre o empreendedor digital e sermos mais realistas.

Embora – sim! – haja muito espaço para os pequenos desenvolvedores, o mercado, assim como aconteceu com os livros e com a telefonia, é dominado por um grupo relativamente pequeno de empresas. Quando digo “dominado” falo, em certo sentido, daquelas que efetivamente ditam os padrões do mercado.

Claro que há exceções (honrosas), como o Linux e a Fundação Mozilla (que, contudo, teve pesado financiamento do Google por razões bem menos “humanitárias” que estratégicas). Mas, o grosso da chamada Economia Digital é dominada, sim, por grandes empresas. E – pasmem – as regras da Economia Clássica continuam valendo, em bom grau.

O Google, por exemplo, sequer parece hoje em dia aquela empresa “cool” do final dos anos 90 e início da década de 2000. Está mais parecido com a Microsoft que com a OLPC, por exemplo. Dizer que o Google privilegia o usuário não é uma mentira – mas também não é exatamente a coisa toda. Na verdade, o Google utiliza trilhões de dados dos usuários (como nós) para montar o que é, certamente, um dos melhores e mais atualizados bancos de dados da humanidade. E, claro, vende a preços de mercado esses dados “agrupados e anonimizados” para empresas que desejam atingir seu consumidor.

E, como já diriam os pragmáticos americanos, there’s no free lunch. Você utiliza “gratuitamente” os serviços em troca de seus dados e hábitos na rede. Que são devidamente empacotados e vendidos – com a sua permissão, dada quando você clica em ok naquelas caixinhas que ninguém lê.

A Apple também não é uma santa benfeitora. Steve Jobs controla com mãos de ferro tudo que entra ou sai das plataformas da Apple. São, possivelmente, os sistemas mais fechados atualmente, do ponto de vista de mercado (acho até mais que os da Oracle e SAP). E depois vende a preços módicos toda a sorte de produtos que fazem parte do seu ecossistema.

O Facebook, idem. Talvez até pior. A quantidade de dados que voluntariamente colocamos no Facebook é bizarra. Fotos e fatos sobre nossas vidas e de nossos amigos, nossas preferências musicais, literárias, lugares que visitamos, etc… É um banco de dados para dar inveja a qualquer analista de redes sociais. Fico imaginando qual seria a reação do Stanley Milgram se ele estivesse vivo para ver isso. E, assim como o Google, vende nossos dados, “agrupados e anonimizados” para quem pagar por isso.

E os outros desenvolvedores? E os independentes?

Claro que não sou apocalíptico (e hoje é o dia do Juízo, não?) ou ingênuo de achar que os pequenos não têm papel algum. Só estou chamando a atenção para o seguinte: o céu não é cor-de-rosa ou pintado em tons de Matisse. Está mais para um céu londrino, quase que permanentemente nublado.

Se, por um lado, temos iniciativas sensacionais como o Wikileaks, por outro devemos ficar bastante atentos a outros sinais menos felizes que aparecem por aí. A reação dúbia do Google em relação à censura chinesa, a colaboração de várias companhias de Internet com os serviços de inteligência ao redor do mundo, e por aí vai.

Os pequenos têm, sim, seu lugar. Contudo, assim como na Economia Clássica, não são eles que ditam as regras do mercado. O Google (e seus congêneres) atingiram um ponto crítico em que têm uma quantidade de informações suficiente para desbancar quase que qualquer outro concorrente – nesse sentido recomendo fortemente a leitura do Economia da Informação, do Shapiro e do Varian. Atingiram altos graus em economia de escala e de escopo. Assim como as empresas não-Internet. E, como líderes do mercado, têm um poder de mando muito alto.

É hora, na minha opinião, de pararmos com essa visão infantil de que a Internet mudou tudo – quando, na verdade, apenas deu novos contornos a processos econômicos bastante existentes. O novo usuário tem poder? Sim e não. Ele tem o poder de divulgar informações, mobilização, etc., mas tudo dentro de condutas mais ou menos pré-formatadas, especificadas em cada uma das ferramentas utilizadas.

Como certa vez ouvi um professor de Filosofia pontuar: “você atualmente é livre, pois você pode escolher tudo que você quer ou não no seu BigMac, ou então livre para dizer exatamente como quer ser explorado”. Claro que é uma perspectiva crítica, mas não deve ser descartada.

Espero ter conseguido chamar a atenção para uma visão menos ufanista da tecnologia. Espero ter conseguido mostrar, pelo menos de início, que embora a Internet seja, em si, uma revolução, as regras de mercado a que estamos sujeitos permanecem, em sua essência, quase a mesma coisa. E, parafraseando Bill Clinton, “é a Economia, estúpido”!

Tenham um bom 21 de maio. Vejo vocês amanhã, caso o mundo não acabe. Abraços,

Pedro.

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