05/06/11

Os neofascistas virtuais

Esse ano tem sido muito interessante para alguém que pesquisa o comportamento das pessoas nas redes sociais. Tivemos uma série de temas polêmicos em pauta e, obviamente, isso não passou despercebido pelas redes sociais.

Desde as declarações infelizes de Danilo Gentilli, passando pela decisão do STF de reconhecer a união homoafetiva e as mobilizações em favor (e contra) a descriminalização da maconha, muitas oportunidades foram para conseguirmos captar melhor a essência da participação das pessoas em redes sociais.

E, infelizmente, algo que já acontecia nos fóruns online de discussão está se mostrando cada vez mais forte. Falo especificamente do aumento dos comentários de leitores que beiram (para ser bondoso) posicionamentos fascistas.

Estou escrevendo um artigo esses dias analisando os comentários dos leitores da Folha de São Paulo na notícia da união homoafetiva. Embora você possa encontrar coisas interessantes e bem articuladas ali (de ambos os lados), uma boa parte do que está escrito acaba não passando de xingamentos, pessoas desejando que outras sejam fuziladas e coisas do gênero. No caso da marcha a favor da legalização da maconha, então, foi algo ainda mais crítico.

Refiro-me ao infeliz artigo (e, mais infelizmente ainda, à série de artigos) do Reinaldo de Azevedo – que, se você quiser ler, está aqui. Não há como dizer que a direita toda seja burra – isso seria no mínimo uma ingenuidade. Vários nazistas e fascistas eram muito inteligentes, ainda que para coisas nada produtivas à sociedade. O que chama a atenção são os comentários feitos ao artigo do Reinaldo.

Transcrevo alguns (ipsis litteris):

“Ei ei Maconheiro, latex é uma delicia.Bem vindo a marcha da borracha, borrachada neles….kkkk”

“É por aí, a pol´cia tem que bater muito, nestes caras.”

“A policia não existe para mandar flores, mas sim, para garantir o império da LEI! Portanto, o cassetete da PM é o consolo perfeito para maconheiros revolucionários e seguidores da ideologia lulo-pinguço-petista.”

“Tem mesmo é que descer o cacete nesses vagabundos.”

E por aí vai. Sergio Amadeu deu um nome bastante adequado para o Reinaldo: trollzinho. Mas acho que posso também dar esse nome para alguns de seus seguidores.

O virtual, ao mesmo tempo que abre espaço para mobilizações maravilhosas (vejam os últimos exemplos no Brasil e no mundo), também abre para outras manifestações não tão boas assim, especialmente quando se tem o anonimato como garantia. Esse fenômeno não é novo, tendo sido estudado pela Sherry Turlke (MIT) e vários outros a respeito do papel que o anonimato tem na exarcebação de opiniões que normalmente as pessoas jamais colocariam na frente (fisicamente) de outras.

Creio que é hora de prestarmos mais atenção a esses movimentos na rede. Se, por um lado, a rede é maravilhosa para protestar contra várias coisas que julgamos válidas, há várias outras pessoas aproveitando-se do espaço anônimo para divulgar coisas que deixariam Joseph Goebbels animado – infelizmente.

Para descontrair um pouco do tema pesado, recomendo o filme “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin. Uma versão legendada completa pode ser encontrada (siga os links abaixo). Se não tiver tempo de ver essa pérola, pelo menos veja o discurso final feito por Charles Chaplin. Vale cada minuto.

Abraços,

Pedro

Discurso de Charles Chaplin – O Grande Ditador

O Grande Ditador – Completo (Legendas em Português)

 

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31/05/11

Política de Facebook

Parece que nos últimos tempos uma nova modalidade de protesto está se tornando cada vez mais comum: o protesto via Facebook. Criam-se páginas (às vezes como eventos, às vezes como causas) nas quais as pessoas, com um simples clique, podem manifestar sua posição.

Os temas são variados: em defesa dos animais, dos portadores de deficiência, dos homossexuais ou, ainda, contra alguma colocação infame ou politicamente incorreta. Os exemplos são muitos e, para você checar, basta abrir sua página do Facebook que lá estará uma penca de pedidos de apoio para alguma coisa.

Mas… pensemos um pouco acerca da natureza política desse apoio.

Pressionar um botão para dizer que “gosta” de alguma coisa é uma atitude, a princípio, inofensiva. Você estará manifestando sua posição em relação a algum tema, e isso se tornará ‘público’ nas páginas dos seus amigos. Muito legal. Mas será que é esse o potencial das manifestações políticas na rede? Será que as manifestações políticas se resumem, atualmente, a clicar em um botão?

Vejamos o caso do Código Florestal – caso você não saiba, foi aprovado na semana passada o projeto de lei que “reforma” o Código Florestal brasileiro, com várias emendas que, na prática, acabaram desvirtuando completamente a ideia original do projeto. Ainda falta a análise do Senado; porém, com a qualidade legislativa de nossos senadores, talvez fosse mais útil mandar o projeto para análise de um grupo de orangotangos para garantir algo de bom.

O que aconteceu no Facebook? Várias iniciativas se formaram, mostrando normalmente a indignação pela aprovação do código, talz… Mas, de prático, o que aconteceu? Fora a disseminação acerca da aprovação do Código, sinto dizer que mais nada de concreto aconteceu.

Já que se adora falar em Revolução da Internet e coisas do gênero, vejo que são poucos os que mandam sequer um e-mail (quem dirá coisa mais sofisticada) para um deputado ou senador cobrando a sua posição sobre o assunto. Não vi circulando com fervor na rede uma informação importante na prática, que é a lista de votação do projeto. E, antes que digam que é difícil de achar ou que o Congresso esconde a sete chaves, peço que vejam esse link. Simples. Quem votou e como votou. Sim, não e abstenção.

Meu medo é que a Internet no Brasil, esse fenômeno maravilhoso de comunicação (que, segundo os entendidos, deu “poder” aos usuários), vire mais uma extensão da nossa tradicional política de botequim, na qual todos estamos irritados e desiludidos com os nossos congressistas mas nada fazemos para mudar o quadro. Uma catarse etílica, mas ainda muito longe de uma mudança real.

Temo que a manifestação da posição política na Internet acabe virando cada vez mais um simples gesto de satisfazer-se com um clique e depois varrer o assunto para fora de casa.

Embora atualmente a ideia de “poder” dos usuários na rede esteja sendo muito importante para a questão dos direitos dos consumidores, é hora de também lembrar que a máquina pública, financiada com o nosso dinheiro, está quase sem controle algum da população – e não exatamente por falta de transparência apenas, mas por falta de paciência para cuidar de algo que é público com o mesmo carinho que normalmente cuidamos do que é nosso.

É transformar o “like” no Facebook em alguma coisa mais prática, alguma ação mais efetiva que, na prática, signifique alguma manifestação real na esfera política.

Um forte abraço,

Pedro

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